Teoria Dunning-Krueger

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Já ouviu falar sobre a teoria Dunning-Krueger? Foi publicado no fim de 1999 no Journal of Personality and Social Psychology. Vou te poupar, leitor de facebook, dos dados tecnicos.
Interessa o resultado: “…é o fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros. Estas pessoas sofrem de superioridade ilusória.

Em contrapartida, a competência real pode enfraquecer a autoconfiança e algumas pessoas muito capacitadas podem sofrer de inferioridade ilusória, achando que não são tão capacitados assim e subestimando as próprias habilidades, chegando a acreditar que outros indivíduos menos capazes também são tão ou mais capazes do que eles. A esse outro fenômeno dá-se o nome de síndrome do impostor.” Isso clareia as coisas?

O Rio do tempo e nossas dores – Rubem Alves

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Rubem Alves: “O Rio do Tempo faz todas as coisas desaparecerem.
Por isso nada é importante.
Nossas ansiedades também estão destinadas ao Rio. Também elas desaparecerão em suas águas.
O seu sofrimento se deve a isso, que você se sente importante demais, que você não presta atenção na voz do Rio.
Quando nos sentimos importantes nós ficamos grandes demais. E junto com o tamanho da nossa importância cresce também o tamanho da nossa dor.
O Rio nos torna pequenos e humildes.
Quando isso acontece a nossa dor fica menor.
Se você ficar pequeno e humilde como nós, você perceberá que somos parte de uma grande sinfonia. Cada capim, cada regato, cada nuvem, cada coruja, cada pessoa é parte de uma Harmonia Universal”

Olhos de pai

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Um dia eu disse ao Flavinho que, desde cedo, sempre que eu via alguém na idade dele, sentia como se fosse um pouco meu filho.
Era fácil quando ele tinha três, quatro anos, mas pensava que com o tempo as coisas mudariam.
Não mudaram.
Hoje vejo adolescentes aos dezesseis e até um pouco mais velhos como filhos.Não só eles, mas é como se eu fosse uma espécie de pai em potencial de todos os que passaram pela idade que ele passou.
“É provável que chegue um dia em que você tenha a idade que tenho hoje e eu, velhinho, verei todos os quarentões como filhos”. – comentei com ele.
“Talvez seja por isso que os velhos costumam chamar todos por “meu filho””.
Sim, talvez seja isso!
Ser pai de todos, aceitar e tratar todos como se fossem filhos, viver com olhos de pai.
Desconfio que nenhuma experiência seja mais próxima de entender Deus do que essa.

Em toda parte sempre o mesmo

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Hermann Hesse e os tempos que se repetem, e aquela nossa mania de transformar o passado em ideal utópico e nos escondermos nele cheios de medo. Em toda parte é sempre o mesmo:
 
“Lembrei-me dos honrados burgueses de minha cidade natal, velhos e dignos senhores, que conservavam a recordação de seu tempo de estudantes como a memória de um paraíso bem aventurado e consagravam à perdida “liberdade” daqueles anos um culto como o que poetas e outros românticos dedicam à sua infância.
Em toda parte era o mesmo!
Todos homens buscavam a “liberdade” e a “felicidade” num ponto qualquer do passado, só de medo de ver erguer-se diante deles a visão da responsabilidade própria e da própria trajetória. Durante alguns anos farreavam e bebiam, para logo se submeterem ao rebanho e se converterem em senhores graves ao serviço do Estado.” H-Hesse (Demian)

Dona Aracy e a vida que passa

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Parei a moto em frente ao prédio onde morava porque vi a dona Aracy. Uma senhora de oitenta e seis anos que passa a maior parte das tardes sentada no jardim, solitária, sem tantos amigos.

Em períodos de chuva e frio ela sumia trancafiada em seu apartamento. Quando o tempo melhorava, e ela reaparecia, eu gostava de brincar dizendo “A senhora é como uma dessas flores que reaparece quando o sol volta a brilhar” – e ela sorria envaidecida.

Perguntei se estava bem e ela respondeu como sempre “Ah, meu filho, levando a vida do jeito que dá. Dói aqui, dói ali, não é fácil ter a idade que tenho”.

Concordei e acrescentei dizendo que o corpo é assim mesmo, envelhece, adoece, mas existe algo dentro da gente que nunca fica velho. É o “algo” que não aceita o desgaste do corpo e, se pudesse, se tivesse pernas novas, correria como uma criança atrás de um bichinho qualquer.

Acomodamo-nos na frágil carcaça, mas há tantas memórias, tantas saudades, tanta esperança embaçada pelos olhos que enxergam cada vez menos.

É como se a vida, uma substância altamente valiosa, estivesse guardada em um frasco perecível, que degrada rapidamente e não fosse capaz de suportá-la por mais do que algumas décadas.

Somos a momentânea expressão de um tempo. Seres frágeis que desaparecerão e, ainda assim, são capazes de carregar os céus, os mares, o universo, sempre em contraste dentro da gente.

Somos paradoxos. Encruzilhadas de dores, de esperanças e nostalgias que jamais encontrarão linguagem suficiente.

Talvez a passagem dos dias sejam isso: Um lugar para acomodarmos as saudades.

Talvez a vida seja assim. Fazer como faz a dona Aracy. Resistir e prosseguir, mesmo com dores. Viver encontrando lugares para nossas esperanças.

Utopias

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As utopias trabalham com o discurso do ideal, mas o que é o ideal? Talvez as utopias sejam semelhantes ao horizonte. Ele está adiante, mas, se minha expectativa estiver projetada em alcançá-lo, haverá frustração. Utopias podem nos colocar em movimento e isso é bom. É provável que a felicidade esteja justamente no caminho, nos cenários do cotidiano, nos pequenos passos que, distraídos com nossas grandes utopias, nem damos conta. A exemplo de tantos ex sonhadores que existem por ai, insistir nas utopias que pregam o ideal como linha de chegada acaba gerando cinismo ou frustração.