Manhã com Millôr

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Passei parte da manhã de hoje com o Millôr Fernandes. Entre outros assuntos, ele falava sobre sua desconfiança com a televisão, a naturalidade do humor, a degeneração do jornalismo.

Papo inteligente em uma roda vida lá de 1989. Comentou sobre a equipe do saudoso Pasquim de uma forma maravilhosa: “Reunimos um time tão especial que jamais seria reunido se a motivação pelo trabalho fosse o dinheiro.”

De vez em quando é necessário ouvir vozes de outros tempos. Gente forjada na dureza, criativos por terem que colocar a mão na massa e, por isso mesmo, sem medo de ter opinião. Certos ou errados, eram capazes de alimentar ideias próprias.

Em tempos onde só se pode falar o “certo”, e o “certo” sempre está ligado ao que meu grupo acredita, ouvir Millor me arejou e me encheu de saudade de uma época que mal vivi.

Vou seguir pelo resto do dia com a boa sensação que só pessoas inteligentes são capazes de provocar.

 

 

 

Tempos de adesão

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Controla-se a linguagem, aprisionam-se as mentes, diminuindo-as, diminuindo-as, diminuindo-as, até que o pensamento livre seja uma afronta. Em tempos histéricos, pensar representa a pior heresia e os hereges devem ser punidos pelas santas inquisições das redes sociais. Não há espaço para contestações de nenhuma natureza: espera-se adesão. Cega, voluntária, subserviente.

Pra onde foi o menino da foto?

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Eu vejo o menino na foto e penso pra onde ele foi.
Está no mesmo lugar que o homem escrevendo acabou de ir. Às vezes ouço a vozinha dele.
Minha mãe, tão mais jovem na imagem, ainda é.
Ninguém deixou de existir. Nunca.
A vida é um eterno movimento pra dentro.
Na linha do tempo expressões históricas de quem temos sido naquele instante, mas o movimento do tempo sempre nos desloca, deixamos de ser pra fora (morte) e nos eternizamos pra dentro, onde o tempo é uma coisa só(vida). Os cenários ainda existem.
Todos que fomos, os que interagimos, as experiências que vivemos, dissolvidos no tempo e redirecionados para dentro, para aquilo que chamo de eu: A capsula em movimento carregando em tudo o que sou, todos que um dia fui.

Pensar será obsoleto

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Em nome de causas reais, mobiliza-se um exercito de “fiscais” histéricos sempre que julgam que alguém ultrapassou seus virtuosos limites.

Rotula-se por um comentário, uma piada, uma expressão (geralmente de mal gosto) legitimando a execução de penas que podem variar entre a execração pública, ou o limbo de quem pode viver na sociedade, mas sem direito a emprego ou respeito. Foram condenados.

Por trás da histeria, temas justos legitimam movimentos políticos e ideológicos que se autoproclamam detentores da verdade e, por isso mesmo, juízes de causas que originalmente não lhes pertence.

Criam um próprio discurso, uma estética, uma linguagem que os caracterize como tribo, priorizam pautas que escondem reais interesses e, em nome da virtude, arregimentam soldados.

Se alguém contesta os movimentos, suas penas, ou representantes, automaticamente é acusado de ser contra as causas. Em um mundo onde a imagem e a reputação são essenciais, raros ousam contestá-los. É mais uma ferramenta de controle.

Chegará o tempo em que pensar será obsoleto.

Produza mais e pense menos

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Estamos criando uma tecnologia maravilhosa por um lado e emburrecedora por outro, especialmente porque a tecnologia e a linguagem , sobretudo, tem sido ferramentas desenvolvidas para o controle. Aceitamos passivamente o conteúdo digital enquanto desaprendemos a pesquisar, questionar e duvidar.
 
Lemos mais Gifs e menos livros. Mais memes e quase nada de poesia. Muitos bordões, pouquíssima lucidez. Na rede brigamos, combatemos, elegemos heróis e inimigos de causas que nem sabemos direito quais são.
 
Aceitamos a substituição das palavras por apressados bordões até que sejamos uma massa tão homogênea que qualquer “deformidade” logo será percebida e excluída.
 
Enquanto isso os “filósofos da autoajuda” seguem no discurso de formatação, para que você “produza mais e pense menos”.

Até que eu me cale

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Trocamos de carro e arrumamos outra mulher, outro marido, outra vida. Mudamos de religião, deixamos tudo de lado e nos transformamos em seres “zen”. Mudamos nossa linguagem, nossos padrões, nosso trabalho e as mudanças nos agradam por um tempo.
Ajudam a estampar um sorriso novo, um olhar esperançoso que adiante será substituído pelo cansaço não confessado, pelas dores latentes que recusamos a admitir.
Empurramos para baixo do tapete e continuamos com nossas dores, silenciosos, em nossa eterna busca até que cesse.
Estava em nós. Tudo dentro. Nossa busca por Deus, por felicidade, por trabalho, por dinheiro, por justiça, por amores… Nossas buscas, todas por nós mesmos, perdidos, fragmentados em uma vida fragmentada.
Damos nomes às coisas de fora, mas dentro da gente elas vivem sem nome, todas eu, todas em mim, silenciosamente angustiadas até serem encontradas. Até que eu me cale.