Dona Aracy e a vida que passa

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Parei a moto em frente ao prédio onde morava porque vi a dona Aracy. Uma senhora de oitenta e seis anos que passa a maior parte das tardes sentada no jardim, solitária, sem tantos amigos.

Em períodos de chuva e frio ela sumia trancafiada em seu apartamento. Quando o tempo melhorava, e ela reaparecia, eu gostava de brincar dizendo “A senhora é como uma dessas flores que reaparece quando o sol volta a brilhar” – e ela sorria envaidecida.

Perguntei se estava bem e ela respondeu como sempre “Ah, meu filho, levando a vida do jeito que dá. Dói aqui, dói ali, não é fácil ter a idade que tenho”.

Concordei e acrescentei dizendo que o corpo é assim mesmo, envelhece, adoece, mas existe algo dentro da gente que nunca fica velho. É o “algo” que não aceita o desgaste do corpo e, se pudesse, se tivesse pernas novas, correria como uma criança atrás de um bichinho qualquer.

Acomodamo-nos na frágil carcaça, mas há tantas memórias, tantas saudades, tanta esperança embaçada pelos olhos que enxergam cada vez menos.

É como se a vida, uma substância altamente valiosa, estivesse guardada em um frasco perecível, que degrada rapidamente e não fosse capaz de suportá-la por mais do que algumas décadas.

Somos a momentânea expressão de um tempo. Seres frágeis que desaparecerão e, ainda assim, são capazes de carregar os céus, os mares, o universo, sempre em contraste dentro da gente.

Somos paradoxos. Encruzilhadas de dores, de esperanças e nostalgias que jamais encontrarão linguagem suficiente.

Talvez a passagem dos dias sejam isso: Um lugar para acomodarmos as saudades.

Talvez a vida seja assim. Fazer como faz a dona Aracy. Resistir e prosseguir, mesmo com dores. Viver encontrando lugares para nossas esperanças.

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Utopias

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As utopias trabalham com o discurso do ideal, mas o que é o ideal? Talvez as utopias sejam semelhantes ao horizonte. Ele está adiante, mas, se minha expectativa estiver projetada em alcançá-lo, haverá frustração. Utopias podem nos colocar em movimento e isso é bom. É provável que a felicidade esteja justamente no caminho, nos cenários do cotidiano, nos pequenos passos que, distraídos com nossas grandes utopias, nem damos conta. A exemplo de tantos ex sonhadores que existem por ai, insistir nas utopias que pregam o ideal como linha de chegada acaba gerando cinismo ou frustração.