O ceticismo encantado

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Gosto do Marcelo Gleiser por seu ceticismo encantado.
Há o ceticismo cínico, rabugento, pré configurado para ser do contra.
Há os que se tornam céticos, não por deixarem de crer na beleza e no mistério absoluto da vida, mas, pelo contrário, exatamente por vislumbrarem a dimensão do oceano se recusam a concebê-lo nas caixinhas, rasas, estreitas, sobre a qual se apoiam grande parte de nossas crenças.
O cético que não perdeu a capacidade de se encantar será mal visto pelos que resistem a encarar a vida como um completo mistério. “Você precisa ter fé”, “Você é muito racional” – ouvem com frequência, agradecem e seguem o caminho, pois sabem que para a maioria das pessoas é mais seguro acreditarem ter as respostas.
Rubem Alves escreveu uma vez que somos construtores de altares a beira do abismo. No altar incluímos nossa arte, nossa ciência, nossas ideias, nossas religiões e tudo isso ilumina nosso rosto.
Mas às vezes a gente se aquieta (ou inquieta), olha para o lado e percebe que o abismo continua lá.
Eis o abismo. Profundo, silencioso, indiferente aos nossos altares.
Quem encarou o mistério não pode voltar atrás.
Continuará alimentando seus altares com ceticismo e encantamento, afinal, o abismo continua lá.

– Hoje os textos do Marcelo Gleiser serviram de inspiração e debate no Mensagens que chegam pela manhã. Ouça as reprises às 11h / 15h/ 20h/ 03h (horário de Brasília) em www.radioinverso.com e apps