Nós, a morte e o tempo

Padrão
Um fenômeno interessante me chama atenção. Vivemos a experiência do tempo. Tudo o que existe um dia passou a ser até que, adiante, terminará.
O tempo é um caminho linear, tem principio meio e fim.
Estranho notar que, apesar da insistência do espelho que embranquece os cabelos e enruga a pele, o lugar onde existo parece estar fora do tempo.
É como se dentro da gente passado e futuro não existissem e a experiência absoluta do que chamo de presente fosse contradita pelas manifestações de passado, sempre presentes em meu subconsciente.
Somos seres que existem entre dois mundos.
O mundo do tempo, pro lado de fora, e o mundo do não tempo, pro lado de dentro.
Talvez essa seja uma das razões que nos faz enxergar a morte como uma aberração e, para tal, precisamos criar explicações, crer nas mais diversas teorias de fé.
A morte (como a percebemos) é uma experiencia do tempo.
Ela decreta um fim ao que um dia teve um começo.
O problema é que a mente humana (que existe no tempo) convive com o paradoxo de saber-se finita e sentir-se eterno (fora do tempo).
Provavelmente seja esse o lugar dos nossos vazios e o ponto de partida de nossas buscas.

O ceticismo encantado

Padrão

Gosto do Marcelo Gleiser por seu ceticismo encantado.
Há o ceticismo cínico, rabugento, pré configurado para ser do contra.
Há os que se tornam céticos, não por deixarem de crer na beleza e no mistério absoluto da vida, mas, pelo contrário, exatamente por vislumbrarem a dimensão do oceano se recusam a concebê-lo nas caixinhas, rasas, estreitas, sobre a qual se apoiam grande parte de nossas crenças.
O cético que não perdeu a capacidade de se encantar será mal visto pelos que resistem a encarar a vida como um completo mistério. “Você precisa ter fé”, “Você é muito racional” – ouvem com frequência, agradecem e seguem o caminho, pois sabem que para a maioria das pessoas é mais seguro acreditarem ter as respostas.
Rubem Alves escreveu uma vez que somos construtores de altares a beira do abismo. No altar incluímos nossa arte, nossa ciência, nossas ideias, nossas religiões e tudo isso ilumina nosso rosto.
Mas às vezes a gente se aquieta (ou inquieta), olha para o lado e percebe que o abismo continua lá.
Eis o abismo. Profundo, silencioso, indiferente aos nossos altares.
Quem encarou o mistério não pode voltar atrás.
Continuará alimentando seus altares com ceticismo e encantamento, afinal, o abismo continua lá.

– Hoje os textos do Marcelo Gleiser serviram de inspiração e debate no Mensagens que chegam pela manhã. Ouça as reprises às 11h / 15h/ 20h/ 03h (horário de Brasília) em www.radioinverso.com e apps

PodCast 2! Palavras que promovam silêncio

Padrão

Tem PodCast novo: É possível encontrar uma linguagem que promova silêncio ao invés de ruídos? Que não tenha medo das perguntas porque sabe que as respostas não são fim em si mesmas, mas pontes que nos mantém em movimento? Nessa conversa falo sobre ciência, filosofia e religião na tentativa de encontrar uma linguagem que nos aproxime.