O abismo continua lá

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No livro “a simples beleza do inesperado”, o cientista Marcelo Gleiser narra, entre tantas histórias, uma experiência que teve aos dezessete anos de idade. Depois de descobrir que todo whisky da casa foi substituído por chá, seu pai demitiu a empregada doméstica que assumiu ter bebido tudo sozinha.

Indignada com a demissão, a mulher – que também era sacerdotisa em algum terreiro nos arredores do Rio – incorporou profundo ódio no olhar e amaldiçoou a casa.

Esquecido o episódio, já depois de um tempo, Marcelo conta sobre um estranho calafrio repentino que sentiu enquanto estudava. Por impulso levantou-se e foi até a sala para logo em seguida ver a estante de cristal e todas as taças simplesmente explodirem sem nenhuma explicação aparente.

Processado o susto, uma série de possibilidades passou pela cabeça do futuro cientista, mas uma em especial fixou-se:

“.. a destruição foi causada por algum efeito perfeitamente natural e eu não consigo imaginar o que poderia ser. Significa que existem dimensões da realidade que escapam ao nosso conhecimento.”

Acho muito provável que a estranha experiência tenha sido importante para que Marcelo, cético, cientista e ateu, tornar-se também filósofo e sensível diante da inegável constatação de que tudo o que sabemos sobre a realidade é visto por uma pequena fresta. Inclusive a fresta da ciência.

Não ter todas as respostas nos mantém humildes.

É a humildade do cientista, sem a qual a ciência não resistiria sob o risco de virar casa de arrogância.

É a dúvida do filósofo que simplesmente faz perguntas, sem a ilusão de que necessariamente chegará à conclusões definitivas.

Rubem Alves escreveu certa vez sobre os altares que construímos a beira de abismos:

“Sou um construtor de altares. Construo meus altares à beira de um abismo. Eu os construo com poesia e beleza. Os fogos que acendo sobre eles iluminam o meu rosto e aquecem o meu corpo. Mas o abismo continua escuro e silencioso…”

Desse modo desenvolvemos nossa linguagem.

A cientifica para o Marcelo, a poética para o Rubem, a filosófica para alguns, a religiosa para outros, talvez a artística, ou quem sabe a despretensiosa comunicação de ideias conectando gerações, velhinhos e seus netos em busca da “verdade da vida”.

Às vezes a sensação de que descobrimos alguma coisa e nos alegramos com “o rosto que ilumina e o corpo que aquece”, em outros momentos, nos sentimos perdidos diante de tantos mistérios, de perguntas eternamente sem respostas, de não encontrarmos repouso diante das questões mais essenciais, presentes nos seres humanos desde sempre: De onde viemos? Para onde vamos? Por que a gente nasce? Por que a gente morre?

O abismo continua escuro e silencioso.

Mas talvez seja exatamente essa a razão pela qual insistimos na poesia e na beleza, na ciência, na religião, na arte, nas relações, na filosofia, nos movimentos humanos que jamais nos levarão à conclusão definitiva e exatamente por isso nos mantém caminhando.

O filósofo britânico Isaiah Berlin, também citado por Marcelo em seu livro, analisou de forma semelhante, a partir do pensamento sociopolítico, as contradições entre os que se julgavam conhecedores da verdade:

“… as soluções encontradas por diferentes escolas de pensamento social são diferentes, e nenhuma delas pode ser comprovada por métodos racionais como sendo a “correta” – mas por uma razão mais profunda. Os valores centrais adotados pela sociedade através dos tempos não estão sempre em harmonia entre si.”

É o caos que promove o contraste sem o qual jamais enxergaríamos, ainda que minimamente. A consciência dos mistérios (abismos) que nos gera os anseios, as dúvidas, as esperanças, a beleza que vira música de Haydn, quadros de Almeida Júnior, poesias de Fernando Pessoa, pensamentos de Nietzsche.

Não creio que a ciência chegará a uma “teoria de tudo”, como proposta por Einstein, assim como nenhuma religião chegará à todas as respostas ao ponto de autoproclamar-se inequivocamente como absoluta e verdadeira. E é bom que seja assim.

Seguiremos humildes construindo nossos altares na esperança que a humanidade seja em parte iluminada, conscientes de que todas as nossas respostas são mínimas expressões do todo, contraditórias, misteriosas, nos lembrando sempre que julguemos ter chegado em algum lugar definitivo: Vá com calma, aquiete-se, o abismo continua lá. Escuro e silencioso.

 

 

Um comentário sobre “O abismo continua lá

  1. Sueli

    Pra minha realidade , que é individual e por isso nao cabe na de outros ,é impossivel crer apenas nos 5 sentidos nesta experiencia carnal/eterica/multidimencional
    Mas é a realidade quw eu criei pra mim que nao é a verdade unica
    É uma ilusão ! , porem no s aspecto bom da palavrar, iludir no sentido de levar a consciencia para um nivel mais do que o anterior (digo mais , nao melhor ou pior )
    Vivo assim, a cada questionamente iludida com a beleza do abismo escuro

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