Velho burocrata

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Homem apressado, velho burocrata, pensando nas contas. Você que blindou as frestas com tantas idéias. Nenhuma luz há de passar. Encheu-se com tuas preocupações cotidianas selando a passagem do vento com tantas certezas.
 
Está preso em sistemas que não criou. Aderiu sem jamais questionar. Acorrentou-se em seguranças medíocres, escondeu-se em frágeis biombos, agachando-se, diminuindo-se até virar esse que ninguém vê. Impediu-se descrer. Temeu.
 
Foge de encarar verdadeiras questões e, sobre elas, deposita seus medos, um a um, empilhados com todo capricho.
 
Esqueceu que é homem.
 
Abriu mão dos mistérios, atirou-se em certezas até que as perguntas sem respostas cessassem.
 
És um burocrata! Um animal racional habitando um planeta escondido, uma entre tantas galáxias, um entre tantos universos. Olha para baixo, não cogita o infinito sobre ti.
 
Protegeu-se dos mares, da noite estrelada, dos ventos uivantes. Não sente mais frio, nem calor, nada que ameace os rituais sufocantes que conduzem tuas rotinas.
 
O material que um dia te constituiu endureceu e não há mais nada que possa despertar a música que te habitava, a poesia que servia de pano de fundo nas primeiras e distantes impressões.
 
Agora conhece todos os mistérios, todas as verdades, todos os segredos; sabedor do bem e do mal.
 
Medíocre burocrata, ninguém fez com que escapasse, não és culpado pelo tempo perdido. Sumirá daqui há pouco e que diferença fará?
 
Passará como tudo que se perde no tempo e que volta de onde veio, sem a mínima ideia de que minimamente existiu.

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