Velho burocrata

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Homem apressado, velho burocrata, pensando nas contas. Você que blindou as frestas com tantas idéias. Nenhuma luz há de passar. Encheu-se com tuas preocupações cotidianas selando a passagem do vento com tantas certezas.
 
Está preso em sistemas que não criou. Aderiu sem jamais questionar. Acorrentou-se em seguranças medíocres, escondeu-se em frágeis biombos, agachando-se, diminuindo-se até virar esse que ninguém vê. Impediu-se descrer. Temeu.
 
Foge de encarar verdadeiras questões e, sobre elas, deposita seus medos, um a um, empilhados com todo capricho.
 
Esqueceu que é homem.
 
Abriu mão dos mistérios, atirou-se em certezas até que as perguntas sem respostas cessassem.
 
És um burocrata! Um animal racional habitando um planeta escondido, uma entre tantas galáxias, um entre tantos universos. Olha para baixo, não cogita o infinito sobre ti.
 
Protegeu-se dos mares, da noite estrelada, dos ventos uivantes. Não sente mais frio, nem calor, nada que ameace os rituais sufocantes que conduzem tuas rotinas.
 
O material que um dia te constituiu endureceu e não há mais nada que possa despertar a música que te habitava, a poesia que servia de pano de fundo nas primeiras e distantes impressões.
 
Agora conhece todos os mistérios, todas as verdades, todos os segredos; sabedor do bem e do mal.
 
Medíocre burocrata, ninguém fez com que escapasse, não és culpado pelo tempo perdido. Sumirá daqui há pouco e que diferença fará?
 
Passará como tudo que se perde no tempo e que volta de onde veio, sem a mínima ideia de que minimamente existiu.

Pálido ponto humano – (Uma adaptação)

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Olhe de novo para aquele ponto. Um corpo parado adiante. Essa é minha casa, isso sou eu. Nele, todos a quem amo, todos a quem conheço, qualquer um dos que escutei falar, cada ser humano que existiu, para mim, viveu sua vida aqui.
O agregado da alegria e do sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, em mim, num grão de pó sob um raio de sol.
O corpo, um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, vieram eles ser amos momentâneos duma fração de corpos como esse.
As nossas exageradas atitudes, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são reptadas por este pontinho de luz frouxo, estendido diante do todo.
Somos como grãos solitários na grande e envolvente escuridão cósmica.
Nossos corpos são os únicos lares conhecidos, até hoje, que pode albergar o que chamamos de consciência humana.
Não há mais algum, pelo menos no próximo futuro, onde a nossa espécie puder emigrar.
Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que esta distante imagem do nosso miúdo mundo, nosso insignificante corpo, onde a vida acontece para nós. ( Adaptação minha para o texto ” Pálido ponto azul, de Carl Sagan)