Eu não resistiria a verdade

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Eu não resistiria a verdade.
Seria como chegar perto do sol. Não dá. O distanciamento é necessário.
Um ser que tivesse acesso a verdade não poderia existir entre nossas regrinhas, não seguiria nenhuma ética, não teria religião, não se limitaria entre o tempo e o espaço.
Seria autônomo, independente, absolutamente livre.
E alguém pode viver em sociedade sem negociar sua liberdade? A “verdade” nos esmagaria porque não somos capazes de suportá-la, aliás, não podemos suportar nem mesmo a verdade do outro.
Como seria a vida se conhecêssemos todas as verdades de todos? Insuportável!
O que nos cabe são porções da verdade, em movimento.
A verdade do instante que se conecta a todas as outras verdades contidas fragmentadamente e cada mínimo instante.

Formigas

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Acordou e percebeu-se formiga.
Todos formigas!
A grande e venerada rainha e seus serviçais, os soldados e os inimigos, a população, a família, todos com suas vidinhas de formiga.
Os castelos, nada além de formigueiros, os trabalhos, as pedrinhas que carregavam com tanto sentido, formigas, formigas , formigas, uma sobre a outra, formigas nascendo e morrendo, formigas esmagadas por pingos d´água, formigas a imagem e semelhança de seus deuses formigas, formigas em guerra, em cruzadas, em fila no meio da grama.
Formigas sábias, formigas ignorantes, pecadoras, santas…Formigas!
Percebeu-se formiga e deixou de ser como as outras

Somos respostas

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Somos respostas.
Acreditamos estar no controle, pensamos conhecer a natureza de nossas ações, mas somos respostas.
Respostas ao mundo onde vivemos.
Respostas aos pais, aos avós, aos bisavós, gente que nem sabemos que um dia existiu.
Tudo o que fazemos responde a algo que provavelmente desconhecemos.
Somos pontas de galhos, milhares, milhões, bilhões de galhos de uma árvore enorme.
Cada galho enxerga-se autônomo, mas estão ligados uns aos outros, alimentando-se da mesma raiz.
O que pensa propor, ainda assim, responde.

Sons do silêncio

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Tem uma música tocando. Me calo e ouço. São notas sutis, sussurros entre silêncios.

Estou quieto. Ouço folhas tocadas pelo vento. O movimento denuncia a brisa que não vejo, mas me toca também.

Ouço pássaros e seus cantos indecifráveis. Eles cruzam o céu, sabe-se lá para onde.

Os sapos coaxam nos banhados da redondeza e celebram. Uma cachorro late, distante, incomodado e persiste.

Vozes que não discirno falam sobre qualquer coisa que não entendo. Expressões de vida em uma tarde quente que só ouço enquanto me calo.

 

 

Levar a vida apesar das dores – Hoje é noite de Natal.

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Acabei de falar com a dona Aracy. Uma senhora de oitenta e seis anos, moradora do prédio onde eu morava. Passava a maior parte das tardes sentada no jardim, solitária, não tinha tantos amigos. Me ligou para desejar feliz Natal, eu só vi a ligação depois e retornei.

Em períodos de chuva e frio ela sumia trancafiada em seu apartamento. Quando o tempo melhorava, e ela reaparecia, eu gostava de brincar dizendo “A senhora é como uma dessas flores que reaparece quando o sol volta a brilhar” – e ela sorria envaidecida.

Perguntei se estava bem e ela respondeu como sempre “Ah, meu filho, levando a vida do jeito que dá. Dói aqui, dói ali, não é fácil ter a idade que tenho”.

Concordei e acrescentei dizendo que o corpo é assim mesmo, envelhece, adoece, mas existe algo dentro da gente que nunca fica velho. É o “algo” que não aceita o desgaste do corpo e, se pudesse, se tivesse pernas novas, correria como uma criança atrás de um bichinho qualquer.

Acomodamo-nos na frágil carcaça, mas há tantas memórias, tantas saudades, tanta esperança embaçada pelos olhos que enxergam cada vez menos.

É como se a vida, uma substância altamente valiosa, estivesse guardada em um frasco perecível, que degrada rapidamente e não fosse capaz de suportá-la por mais do que algumas décadas. Estamos aqui em clima de Natal, vivendo nossas saudades em meio as confraternizações, “celebrando” não se sabe exatamente o que e, na verdade, não importa.

Somos a momentânea expressão de um tempo. Seres frágeis que desaparecerão e, ainda assim, são capazes de carregar os céus, os mares, o universo, sempre em contraste dentro da gente.

Somos paradoxos. Encruzilhadas de dores, de esperanças e nostalgias que jamais encontrarão linguagem suficiente.

Talvez o Natal seja isso. Um lugar para acomodarmos as saudades.

Talvez a vida seja assim. Fazer como faz a dona Aracy. Resistir e prosseguir. Viver em busca de lugares para nossas esperanças.

 

 

 

 

Velho burocrata

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Homem apressado, velho burocrata, pensando nas contas. Você que blindou as frestas com tantas idéias. Nenhuma luz há de passar. Encheu-se com tuas preocupações cotidianas selando a passagem do vento com tantas certezas.
 
Está preso em sistemas que não criou. Aderiu sem jamais questionar. Acorrentou-se em seguranças medíocres, escondeu-se em frágeis biombos, agachando-se, diminuindo-se até virar esse que ninguém vê. Impediu-se descrer. Temeu.
 
Foge de encarar verdadeiras questões e, sobre elas, deposita seus medos, um a um, empilhados com todo capricho.
 
Esqueceu que é homem.
 
Abriu mão dos mistérios, atirou-se em certezas até que as perguntas sem respostas cessassem.
 
És um burocrata! Um animal racional habitando um planeta escondido, uma entre tantas galáxias, um entre tantos universos. Olha para baixo, não cogita o infinito sobre ti.
 
Protegeu-se dos mares, da noite estrelada, dos ventos uivantes. Não sente mais frio, nem calor, nada que ameace os rituais sufocantes que conduzem tuas rotinas.
 
O material que um dia te constituiu endureceu e não há mais nada que possa despertar a música que te habitava, a poesia que servia de pano de fundo nas primeiras e distantes impressões.
 
Agora conhece todos os mistérios, todas as verdades, todos os segredos; sabedor do bem e do mal.
 
Medíocre burocrata, ninguém fez com que escapasse, não és culpado pelo tempo perdido. Sumirá daqui há pouco e que diferença fará?
 
Passará como tudo que se perde no tempo e que volta de onde veio, sem a mínima ideia de que minimamente existiu.

Pálido ponto humano – (Uma adaptação)

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Olhe de novo para aquele ponto. Um corpo parado adiante. Essa é minha casa, isso sou eu. Nele, todos a quem amo, todos a quem conheço, qualquer um dos que escutei falar, cada ser humano que existiu, para mim, viveu sua vida aqui.
O agregado da alegria e do sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, em mim, num grão de pó sob um raio de sol.
O corpo, um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, vieram eles ser amos momentâneos duma fração de corpos como esse.
As nossas exageradas atitudes, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são reptadas por este pontinho de luz frouxo, estendido diante do todo.
Somos como grãos solitários na grande e envolvente escuridão cósmica.
Nossos corpos são os únicos lares conhecidos, até hoje, que pode albergar o que chamamos de consciência humana.
Não há mais algum, pelo menos no próximo futuro, onde a nossa espécie puder emigrar.
Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que esta distante imagem do nosso miúdo mundo, nosso insignificante corpo, onde a vida acontece para nós. ( Adaptação minha para o texto ” Pálido ponto azul, de Carl Sagan)