Eclesiastes

Padrão

Pode ser que as cortinas se fechem e tudo escureça.

Vozes baixas causam dor de cabeça e a presença sutil irrita. Chega o tempo em que as alegrias são escassas e tudo pesa demais. A luz incomoda.

A gente se perde, sem graça, sem motivos, loucos pra chegar a hora do sono e morrer por algumas horas. A gente se perde.

Melhor poupar o outro das minhas angústias, da minha cara amarrada, evitar discussões tão a flor da pele. Quando as cortinas se fecham, me fecho. Fujo.

Do lado de fora a vida segue, ordinária. Medíocres com suas alegrias sem motivo, vivendo em bolhas de ilusão. Medíocres! Estourarão adiante e arrancarão esse sorriso besta da cara. O que adianta? Pra que essas importâncias todas diante da realidade: tudo termina.

Tudo termina. Tudo vaidade. Tudo passa.

Passa? Por que tanto peso? Uma brisa.

Por que tanta angústia? Tudo passa. Um raio de luz.

Uma fresta de cortina aberta devolve a luminosidade aos pensamentos. O ar. Passa.

Está tudo bem.

Do lado de fora tudo como sempre.

Então não é a política, nem o trabalho, nem a falta de dinheiro. É cansaço.

Movimento-me. Descanso.

As cortinas se abriram.

Era só cansaço.

Tudo passa.