Um pedacinho da minha história no rádio

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Gravei para o Itamar Junior do Fã Clube Transamérica. Uma rádio muito especial que foi fundamental na minha formação como profissional. Um pouquinho da história da rádio e minha também.

Um

De repente, velho

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Lembro com clareza dos meus pais dizendo “Como está velho!”. Geralmente, depois de alguns anos sem ver alguém, exclamavam com espanto sobre as bruscas mudanças impostas pelo tempo.

Eu achava aquilo coisa de velho. Por que reconhecer seus pares gerava tanto espanto? Eles estavam envelhecendo e a percepção da velhice alheia, nada mais era do que um gradual movimento do reconhecimento da própria. Começavam se espantando com a dos outros e, em seguida, com a imagem que o espelho denunciava com frieza.

Depois envelheceram e não me recordo mais deles dizendo a frase. Hoje quem diz sou eu.

Vi Ziraldo no Roda Viva esses dias e tomei um susto. Lembro dele mais ou menos com a idade que eu tenho hoje, nos visitando na “primeira série do primário” (sim, já uso essas expressões velhas). Na época eu não sabia direito quem era o tal autor do “Menino Maluquinho”, mas lembro que gostei do livro.

Anos depois reencontrei o Ziraldo em uma palestra aberta em uma livraria dentro de um Shopping aqui em Porto Alegre, obviamente ele estava mais velho, mas isso não me chamou atenção.

Na entrevista que assisti ontem, ele logo avisou: “Saibam que estou velho e aconteceu de repente. Acordei e estava assim.”

Resolvi buscar na internet nomes aleatórios que não via há muito tempo, mas guardava na mente a imagem de sempre. Me assustei! “Como estão velhos!” Repeti o susto dos meus pais.

Acho que estou no mesmo caminho. Reconhecendo nos outros a velhice que bate a porta e branqueia minha barba, serena meus pensamentos e se impõe, implacável, como fez com eles, com o Ziraldo e com todos que superarão a outra opção, morrer cedo.

Estranho essa coisa de envelhecer. A gente , tão jovem, agora se flagra espiado por outro no espelho, parecido com o pai e constata, com certa tristeza, a juventude ceifada entre os que dividiam o vigor dos anos ao nosso lado.

Ziraldo tem razão. Um dia acordaremos velhos. Sei que não é meu caso ainda, mas estou perto do susto que virá pela manhã, logo na primeira imagem do espelho. Cuidarei para que o corpo que degrada não sufoque o menino que lá dentro, espantado, sempre me olhará.

“Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto…é cada vez menos estranho…
Meu Deus, Meu Deus…Parece
Meu velho pai – que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar – duro – interroga:
“O que fizeste de mim?!”
Eu, Pai?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga…Que importa? Eu sou, ainda,
Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra!-
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste…” – Mário Quintana