O futuro das profissões

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É um erro avaliar um bom profissional, em qualquer área, apenas pelo conhecimento técnico.

Daqui pra frente a tecnologia se encarregará de suprir essa parte. Profissões exclusivamente técnicas diminuirão na proporção em que o conhecimento, cada vez mais, será armazenado em servidores.

Programas sobre leis analisarão caso a caso e rapidamente correlacionarão jurisprudências, consultarão a constituição, os prazos, os recursos e relativizarão o papel do advogado. O advogado do futuro deverá desenvolver a habilidade de tratar com as pessoas.

Na medicina o nível de acerto em diagnósticos (e tratamentos) aumentará quando uma maquina for capaz de exames com baixíssimo percentual de erro. E elas já estão aparecendo. O médico do futuro deverá ser menos despachante de remédios, aprender a olhar nos olhos e ser mais humano.

Aviões voarão sem pilotos, carros sem motoristas, profissões como jornalistas terão sua importância modificada na proporção em que a tecnologia continuará conectando pessoas e distribuindo informação sem necessidade de intermediários. Se os jornalistas quiserem manter-se relevantes deverão aprender a comunicar-se além das técnicas, conscientes de que tratam sobre dilemas humanos.

O que as máquinas ainda não fazem é substituir o contato entre as pessoas.

Estamos chegando rapidamente em um tempo onde a técnica não basta. Empresas, escolas e universidades que não ajudarem profissionais a lidarem com emoções e enxergarem as pessoas, estão a caminho do fim.

As profissões do futuro não irão desconsiderar o aspecto técnico, mas, igualmente, deverão valorizar as habilidades humanas, sem as quais, as máquinas serão absolutas.

A verdade, as gentilezas e o vento

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Tem um vídeo circulando na internet onde o escritor motivacional Augusto Cury explica sua conversão a fé cristã. Por alguma razão própria ele acredita ter sido o “maior ateu de todos os tempos”, até que, por meio de um “método científico” desenvolvido por ele mesmo, chegou a “racional” conclusão de que Jesus é Deus. Desde então tornou-se um convertido.

Palavras “cientificamente” esculpidas para encontrar eco nos corações de quem precisa dessa chancela: Um “grande” pensador (o maior de todos) rende-se e assume a fé cristã. Ele descobriu a “verdade”.

O ateu é mau. O cristão é bom. A fé é certa. A dúvida é errada. Ideias embutidas em sua fala. Acontece que ninguém vive apenas de certezas e as dúvidas são importantes para gerar contraste. Ficamos cegos quando expostos a pura luz, exatamente como a plena escuridão. Cegueira branca, cegueira escura.

Certezas absolutas nos torna arrogantes. Pensamos ser conhecedores da verdade, como se ela coubesse em nossos pensamentos. Os pensamentos não apontam para as “verdades”, eles apenas nos revelam, se movimentam e viram outra coisa. Como o vento. 

Quantos fatores desencadeiam o vento? O relevo, a temperatura, a pressão do ar, a umidade, os corredores formados por corpos, muros, prédios, casas, os deslocamentos; o vento que nos toca e não sabemos o que vira depois. Onde o vento nasce e morre? Não vejo o vento a não ser que ele me toque ou toque um objeto. Não vejo o vento, vejo o movimento do que é tocado por ele. Onde nasce e morre o pensamento?

O cientista, antes de tudo, deve ser um curioso. Caso contrário sua arrogância irá impor fim às descobertas. Um cientista que chega a uma resposta se deparará com outras dúvidas inevitáveis e até então desconhecidas. Então segue o caminho. Ele ainda não chegou. A ciência não é um destino, mas um horizonte.

Um filósofo que acredita saber, deixou de ser filósofo. Agora ele formula respostas, as defende como teses e se apropria delas. É um doutor! Terá seguidores, mas perdeu a dimensão das dúvidas.

E a espiritualidade? Tenho dificuldades em pensá-la sem perplexidade, sem o encanto pelo mistério. Espiritualidade possível de ser dissecada por meios “científicos”, sejam eles quais forem, são reduzidas ao que cabe em uma linguagem. Vento “estocado”, como diria a filosofa.

Queremos controle e o pensamento nos dá essa ilusão. Agora eu sei! E, se o que penso “é”, se você pensa diferente, o que pensa, “não é”. Me cabe te convencer.

O pensamento é importantíssimo, mas é por meio da racionalidade que concluo seus próprios limites. Paradoxo.

Humilde abro mão do controle. Bastam as gentilezas. O vento. O gentil não será “o maior de todos”. A lógica da gentileza me torna o menor. Eu sirvo. Eu cuido. Eu presto atenção. E isso basta. Como o vento.

Ele me toca, eu não vejo. Ele me movimenta e segue o caminho não se sabe para onde. Meu pensamento o reconhece, mas não se apropria dele.

E como poderia ser diferente? Acredito na verdade, no absoluto, acredito que há uma espécie de lógica nas dinâmicas da vida que é tão ampla, tão profunda, tão mais complexas do que meus pensamentos. Meu pensamento aponta, mas não se apropria.

Quem descobre a “verdade” e sobre ela projeta uma linguagem que tente defini-la impressionará alguns, venderá livros, dará palestras, mas a diminuirá. Viverá em ambientes assépticos e jamais se exporá ao vento. Assumirá o controle

O vento é selvagem demais. O vento não respeita os meus pudores, nem minhas verdades. Ele me lembra, inconvenientemente, que não estou no controle.

Bagunça tudo e depois vai embora.

 

 

 

 

Um homem na multidão

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Há uma multidão naquele homem do outro lado da rua.

Quantos pensamentos, quantos sonhos, quantas respostas escondidas na irremediável pressa? Ele não caminha sozinho. Nele os pais, os amigos, o mundo inteiro.

Em seus trejeitos vejo respostas. O homem atravessando a rua pensa que é livre. Ele não sabe que nenhum pensamento é autônomo. As certezas que carrega foram filtradas por outras certezas, as dúvidas fomentadas por outros corações, o olhar que reflete a visão de muitos.

A “coisa” que habita a carne encontra uma linguagem e se expressa. Fazemos ciência, arte, literatura, inventamos religiões, culturas, em tentativas de entender quem somos.

Somos muitos. A humanidade inteira, o universo, talvez, contido naquele corpo apressado que atravessa a rua e agora some no meio de outros.