Quem inventou o Brasil?

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“O Brasil foi inventado pelo Estado. Essa é uma diferença fundamental. Não foi a sociedade que criou um Estado para atender à sus necessidades de ação coletiva.

Foi um Estado que criou uma sociedade para ocupar um território e render tributos para financiar o Estado. Houve ma inversão da qual curiosamente não nos libertamos.” – Eduardo Gianetti

O positivismo e a dor

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O positivismo é um alucinógeno perigoso e cria dependência, se consumido além de pequenas doses. Ficamos fracos porque passamos a acreditar que a dor é uma aberração e então fugimos dela.

Perdemos a oportunidade de enxergarmos a vida com lentes mais amplas, sem o afunilamento maniqueísta que dificulta percepções mais profundas.

Melhor ser positivo na vida e buscar alegrias, mas, quando a dor vier, faz bem lembrar que potencialmente ela também traz sementes de significados. Tudo traz. Não é preciso negá-la.

O bem ou o mal, a alegria e a tristeza, não se limitam às experiências, mas vivem em nosso olhar e em nossa capacidade de projetar significados.

A tecnologia e a linguagem como ferramentas de controle

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Essa semana li sobre uma nova tecnologia para multar, vigente desde 2017 em SP. Ela calcula o tempo que o veículo leva para percorrer entre um semáforo e outro. Se for mais rápido que a média, será multado.

Não quer ser multado? Respeite as leis, diriam muitos. Não se trata apenas disso. A questão é o nível de controle que estamos cada vez mais submetidos.

Você já leu a quantidade de concessões que aceita ao baixar apps como o Waze, por exemplo?

Aqui vão algumas: “Ler suas mensagens de texto”, “Tirar fotos e gravar vídeos”, “Gravar áudios”, “Ler e escrever dados de contato”, “Ler eventos do calendário e informações confidenciais”, “Ler conteúdo do cartão SD, Modificar ou apagar conteúdos do cartão de memória”, “Adicionar ou remover contas, criar contas e definir senhas”, “Acesso total à internet. Receber dados da Internet, ver status da rede”, e a lista segue.

Não acredita? Tá lá em “informações da aplicação” no seu celular. É só checar.

Ninguém discute as facilidades de apps como Waze, por isso aceitamos, mas, em nome de facilidades, do cumprimento da lei, de segurança, o que estão nos empurrando? Em que estamos nos transformando?

Especialmente depois dos atentados em NY, em 2001 e a espetacularização do terror, nos tornamos dóceis com o controle em nome da segurança. As portas foram abertas.

Faça uma pesquisa em seu computador por passagens aéreas, por exemplo e receberá propagandas incessantes em quaisquer sites que entrar. Os algorítimos, criados para “melhorar sua experiência na rede”, mas que na verdade existem para nos formatar diante de conteúdos de vendas. (de produtos, notícias, pensamentos)

O fato é que a sociedade descrita por George Orwell em 1984, com suas teletelas, duplipensamento e novfala já está em vigência com níveis de sofisticação que o autor jamais imaginou.

No continente autoritário do “Big brother”, a Novfala existia para diminuir as palavras, quase como uma fábrica de bordões que condensava idéias e domesticava o pensamento.

“Fake News” é um desses bordões. Ele tenta classificar, não apenas notícias falsas, mas informações que não se encaixam em determinadas linhas de pensamento.

Veja o caso do patrulhamento do “politicamente correto”. Em nome de causas reais, mobiliza-se um exercito de “fiscais” histéricos sempre que julgam que alguém ultrapassou seus virtuosos limites.

Rotula-se por um comentário, uma piada, uma expressão (geralmente de mal gosto) legitimando a execução de penas que podem variar entre a execração pública, ou o limbo de quem pode viver na sociedade, mas sem direito a emprego ou respeito. Foram condenados.

Por trás da histeria, temas justos legitimam movimentos políticos e ideológicos que se autoproclamam detentores da verdade e, por isso mesmo, juízes de causas que originalmente não lhes pertence.

Criam um próprio discurso, uma estética, uma linguagem que os caracterize como tribo, priorizam pautas que escondem reais interesses e, em nome da virtude, arregimentam soldados.

Se alguém contesta os movimentos, suas penas, ou representantes, automaticamente é acusado de ser contra as causas. Em um mundo onde a imagem e a reputação são essenciais, raros ousam contestá-los. É mais uma ferramenta de controle.

Chegará o tempo em que pensar será obsoleto.

Estamos criando uma tecnologia maravilhosa, por um lado, e emburrecedora por outro, especialmente porque a tecnologia e a linguagem , sobretudo, tem sido ferramentas desenvolvidas para o controle. Aceitamos passivamente o conteúdo digital enquanto desaprendemos a pesquisar, questionar e duvidar.

Lemos mais Gifs e menos livros. Mais memes e quase nada de poesia. Muitos bordões, pouquíssima lucidez. Na rede brigamos, combatemos, elegemos heróis e inimigos de causas que nem sabemos direito quais são.

Aceitamos a substituição das palavras por apressados bordões até que sejamos uma massa tão homogênea, que qualquer “deformidade” logo será percebida e excluída. 

Enquanto isso os “filósofos da autoajuda” seguem no discurso de formatação, para que você “produza mais e pense menos”.

Confesso que sou pessimista em relação ao futuro.

Pessoalmente vejo uma sociedade cada vez mais sequestrada, manipulada por sutilezas que geram medo, raiva e compulsões. As necessidades são instaladas artificialmente para que, depois, “facilidades” ou “facilitadores” sejam vendidos como necessários.

Muitas vozes, poucas falas. Muita discussão, pouco debate.

Apesar do pessimismo, creio no poder de cada indivíduo que lucidamente resiste. Enxergar é um primeiro e grandioso passo.

Os próximos passos não são fórmulas mágicas, mas atitudes cotidianas de quem reconhece fazer parte desse “sistemão”, mas não se deixa levar por ele.

Historicamente sempre houve gente que resistiu e, como pode, manifestaram-se contrariamente a transformação de humanos em rebanhos.

Sempre foi assim, mas parece que nos dias de hoje, com nossa avidez por consumo e a ajuda da tecnologia como disseminadora de informação e conexões, o processo acelerou.

1984 ficou lá atrás, no texto profético de George Orwell publicado em 1949. Já passou muito tempo e nós continuamos seduzidos por nossos grandes irmãos. Os que nos vigiam e insistem em nos dizer o que devemos ser.