Rubem e Fernando

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Hoje, na rádio, li esse texto do Rubem Alves. Lindo!

 

“Olhei para as flores e elas começaram a falar. O que disseram? Disseram o que dizem sempre mesmo quando eu não estou lá: “Os seus olhos estão contemplando o que tem acontecido por milhares de anos. Por milhares de anos assim temos florescido. Por outros milhares de anos assim continuaremos a florescer. Muitos outros rebanhos perturbados como o seu já passaram por aqui. Mas deles não temos mais memória.
Passaram e nunca mais voltaram.
Desapareceram no Rio do Tempo.
O Rio do Tempo faz todas as coisas desaparecerem.
Por isso nada é importante.
Nossas ansiedades também estão destinadas ao Rio. Também elas desaparecerão em suas águas.
O seu sofrimento se deve a isso, que você se sente importante demais, que você não presta atenção na voz do Rio.
Quando nos sentimos importantes nós ficamos grandes demais. E junto com o tamanho da nossa importância cresce também o tamanho da nossa dor.
O Rio nos torna pequenos e humildes.
Quando isso acontece a nossa dor fica menor.
Se você ficar pequeno e humilde como nós, você perceberá que somos parte de uma grande sinfonia. Cada capim, cada regato, cada nuvem, cada coruja, cada pessoa é parte de uma Harmonia Universal.”

 

E na sequência, o Fernando Pessoa:

“Quando vier a primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada,

A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme,

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.”

Melhor ser gentil

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A ideia de mudar o mundo é enganosa, é pesada, frustrante. Por mais bem intencionado que seja, chegará o momento em que a dolorida constatação de que o mundo segue seu próprio curso desanimará.

Melhor a ideia de ser gentil. Nas pequenas coisas, nas oportunidades cotidianas de enxergar a si e ao outro fora das margens de valores que nos desumanizam.

Ninguém precisa ser herói. Ser herói é poder demais e nenhum de nós está preparado para tal.

Melhor ser humano. Melhor ser gentil. Desencadeador de movimentos sutis, imperceptíveis no primeiro momento, mas, ainda assim, revolucionários.