O necessário é consequência

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Desconfio de gente que prega o mundo perfeito.

Não creio em mundo, nem em pessoas perfeitas. Em nome do amor, atrocidades foram e continuam sendo cometidas por gente bem intencionada.

Fala-se em Deus, em justiça social, em democracia, em solidariedade e as pessoas seguem. Fixadas em horizontes utópicos passam por cima umas das outras crendo em um bem maior, geralmente representado por um líder, uma religião ou uma ideologia.

Prefiro as causas do cotidiano. Quem não enxerga o outro, o que está perto, dificilmente terá olhos para a humanidade. Aliás, o que é humanidade senão o coletivo de indivíduos?

Creio nos pequenos movimentos que silenciosamente desencadeiam outros, e outros, e outros.

Enquanto ditadores, políticos e manipuladores religiosos enriquecem vendendo utopias, penso que seria melhor se projetássemos nossas melhores energias nas demandas mais simples, fora de aplausos. O necessário costuma acontecer como consequência.

 

A verdade é perigosa

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Quanto mais me aproximo da “verdade”, mais reconheço o quanto ela é maior do que eu.

A verdade é perigosa. Não cabe em minha linguagem, nem nos meus códigos de pensamento. Pensar a verdade é diminui-la. Diminuir-me é enxergar através de uma pequena fresta.

A fresta é estreita, mas a luz que por ela passa pode iluminar o ambiente.

A verdade não tem nome, nem fé, nem moral, nem lógica, nem ética. É selvagem e implacável com quem tenta encará-la.  Só pode ser vista por reflexos, aqui e ali, pedacinhos que se movimentam e se espalham por toda parte.

 

Doente de velho

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Ainda guardo uma singela memória do tempo em que fui velho.

Lembro do cansaço, da sensação que o mundo tinha ficado grande e movimentado demais e que eu não era capaz de estar nele. As imagens não são muito nítidas.

Lembro também de um sentimento constante de despedida. Eu vivia como quem está no último dia de uma longa viagem, com a mala pronta, aguardando a chegada do trem que me levaria embora. Cada experiência poderia ser a última e saber disso me fazia sofrer.

Estranho dizer, não é fácil recuperar cenários. Às vezes um ou outro aparece aleatoriamente e tenho dificuldade em discernir se foram reais ou fruto de imaginação.

Tem uma cena que sempre volta. Era um clube, talvez um parque, essa parte ainda não está muito clara.

Vejo outros velhos como eu.

Havia uns cinco ou seis senhores, todos mais ou menos com minha idade.  Estávamos em uma roda discutindo assuntos de velho, dizendo que o passado era melhor e que o mundo se encaminhava para a perdição.  Não escondíamos a saudade de outros tempos, não exatamente por serem melhores, mas por tratar de um mundo onde ainda cabíamos.

Tínhamos controle do rumo de nossas vidas, tínhamos escolhas, estávamos indo para muitos destinos e a morte parecia um conto encantado, distante demais para nos preocuparmos. No fundo estávamos lamentando não ter mais corpo para viver o mundo que evoluiu com gente nascendo, com lugares para ir, tecnologias sendo criadas, as moças bonitas, as praias, as festas, as alegrias que ainda éramos capazes de ver, mas privados de viver.

Naquela manhã ouvi pela primeira vez a frase: “A velhice é uma doença.”

Foi um dos amigos que resmungou no meio da conversa. “A velhice é uma doença. ” Nunca deixei de pensar naquilo. Eu, que sempre tentei ver o lado positivo de tudo, que na juventude pensava que seria um velho sábio e feliz, cheio de netos, de paz, agora me percebia doente de velho.

O mundo ainda existia e a vida jamais deixou de fazer convites que somente os sãos podem aceitar, não os doentes. Para nós, os doentes de velho, havia certa compaixão irritante, nos olhavam como seres frágeis, menores, não como fazem com as crianças que ainda tem o mundo inteiro pela frente, mas com os moribundos que recebem o benefício de escolherem como será sua última refeição.

Nossa última refeição era diminuta e sem colesterol. Só saladas, por favor. Diminuam as alegrias, sem riscos, sem risos, pode fazer mal para o coração.

Se a velhice é uma doença, alguém deveria inventar a cura.

A paixão e a racionalidade

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A paixão e a racionalidade costumam ser antagônicas. O rumo do pensador jamais será o mesmo do louco por paixão. Um, por saber que tudo é relativo, buscará o equilíbrio, em todos os aspectos. O outro, por ser apaixonado, buscará adesões. Quem adere não questiona por acreditar que encontrou a verdade. A paixão é a “verdade” e, contra ela não há relativizações.

Quem busca seguidores tenta seduzi-los, não para pensar, mas para se apaixonarem. Cegos, seguem.

É assim que vejo o Brasil hoje. Seja no campo político, nas religiões que crescem, nas discussões cada vez mais superficiais, polarizadas, apaixonadas.

Todos tem opinião para tudo, todos sabem, todos brigam. Todos loucos. Loucos de paixão.