O Brasil dos impasses

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O BRASIL DOS IMPASSES
 
Um dos problemas mais sérios do nosso tempo é que perdemos as muitas perspectivas de olhar. É sempre de um lado ou de outro, é bom ou mau, é certo ou errado. Somos estimulados pelo imediatismo das comunicações de redes sociais que não permitem a maturação dos assuntos, mas vivem de curtidas afobadas.
 
Os imbecis sempre existiram e creio que Umberto Eco acertou quando disse que as redes sociais deram voz a uma legião deles. 
 
Diante disso fica mais difícil entender o que está acontecendo no Brasil dos impasses.
 
A imprensa, como sempre, trata a priori de desqualificar qualquer movimento de massa que ameace desestabilizar o status quo. “Especialistas” com idiomas próprios afirmam que não é possível mudar, que as coisas são o que são e que devemos aceitar que dói menos. Engraçado notar (a exemplo de Junho de 2013) como o jornalismo tende a mudar de opinião rapidamente, passando a apoiar movimentos que antes condenava, assim que percebe que está remando contra a maioria. 
 
Os políticos, cada um a seu modo, fazem demagogia, esquivando-se de eventuais responsabilidades diante de um cenário que não se limita ao preço dos combustíveis, dos fretes ou a situação dos caminhoneiros, mas de um sistema inteiro de descaso, que existe como fim em si mesmo e que jamais querem mexer. Arrecadam no consumo, na renda, em tudo e nunca tem dinheiro. Elegem-se para defender interesses nada públicos e vivem como reis bancados pelo povo.
 
A mobilização da população é justa e desejável. Mas que não seja cooptada por salvadores da pátria. Seja quem pensa que político X ou Y resolverá, ou quem ingenuamente espera que uma eventual intervenção militar seja a solução de todos os problemas. Continuaremos a esperar por salvadores da pátria enquanto não tomamos consciência que a pátria somos nós e como tratamos no cotidiano o outro, o trabalho, a cidade e nossas prioridades. Ninguém virá nos salvar. 
 
Por mais que haja excessos e que a população esteja sofrendo serias consequências, acho simplista responsabilizar as paralisações sem levar em consideração o que elas significam.
 
O Brasil escasso e rendido não é fruto da ação de uma categoria apenas. Colhemos os dividendos de nossa omissão histórica, nosso encanto por heróis de gravata ou de farda, nossa paralisia diante dos muitos e muitos golpes promovidos por políticas públicas corruptas e demagógicas há tantos anos.
 
Se um país tão privilegiado pela natureza, tão rico, vive a penúria que nos encontramos, deve haver em cada um de nós um movimento mínimo de autocrítica, pelo menos diante de nossa renovada esperança em “seres iluminados” ou “sistemas salvadores”, enquanto nos esquecemos que cabe a cada um de nós,  em nossos micro cosmos, trabalhar por um país mais justo a partir do ambiente em que vivemos, de como lidamos com o trabalho, do tipo de postura que alimentamos na vida. Sim, isso conta! 
 
Sei que a hora não é para sofismas. Sei que é necessário um acordo que nos livre de mais uma semana de caos.  É preciso algo prático que faça a roda girar e exorcize os fantasmas que assombraram os últimos dias. 
 
Mas também é preciso lucidez que se movimente para muito além do maniqueísmo das redes sociais ou o reducionismo dos telejornais. Se queremos algo, que fique claro o que é. Se é para mudar, que aceitemos começar por nós e como lidamos com o que é público. Que tenhamos em mente que o país que vivemos reflete o povo que somos e,  o povo que somos, reflete a pessoa que sou.
 
Nessa hora é fácil eleger heróis ou vilões, todo cenário está armado para isso. O desafio é perceber nosso papel, o meu, o seu, o de cada um dos que hoje tem receios sobre que tipo de surpresas o Brasil dos impasses nos reserva para amanhã.
 
Em quem votaremos, como seremos no ano que vem, os caminhos que nos movimentarão para longe das tantas armadilhas, acredite, estão diretamente ligados às escolhas que estamos fazendo agora. E isso inclui a mim e a você.

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