A verdade dos homens

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Existem argumentos para tudo. Qualquer “verdade” pode ser dita ou contradita e isso não tem fim. Quem tem razão? Quem sabe mais? Talvez a verdade esteja mais perto do que simplifica, do que facilita o entendimento e, ao invés de guerras e divisões, une os homens.

Deus das formigas

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Entre as formigas há uma crença muito antiga. Elas acreditam ser a imagem e semelhança de Deus. O Deus formiga tem anteninhas e mora em um formigueiro muito alto, no topo da montanha mais distante.

Unanimidades

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Talvez seja exagero de minha parte.
Ultimamente tenho usado a aprovação da maioria como medida para o que não quero.
Se todos são, não sou. Todos vão? Então fico. A maioria achou graça? Eu não.
As músicas mais ouvidas, os políticos mais votados, os livros mais lidos, os posts mais curtidos, a moda, os medos, os movimentos, a lista é longa.
Quer coisa mais irritante do que palestrantes motivacionais?
E os gifts e anexos que dominaram os “inbox”? Ou os recortes da última palestra chata do fulano de tal no whatsapp, os padres cantores, os gurus vendendo vida melhor com seus dentes superbrancos, o marketing em tudo, como linguagem absoluta, onipresente, onipotente, inquestionável. Cansativo!
Tudo bem, pode ser que seja rabugice. Provavelmente é.
Mas confesso minha impaciência diante das maiorias e seus claustrofóbicos pensamentos politicamente corretos.
Estou cansado de unanimidades. Unanimidades? Pois é, Nelson Rodrigues tinha pensamentos interessantes sobre elas.

A mensagem das flores

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Olhei para as flores e elas começaram a falar. O que disseram? Disseram o que dizem sempre mesmo quando eu não estou lá: “Os seus olhos estão contemplando o que tem acontecido por milhares de anos. Por milhares de anos assim temos florescido. Por outros milhares de anos assim continuaremos a florescer. Muitos outros rebanhos perturbados como o seu já passaram por aqui. Mas deles não temos mais memória.
Passaram e nunca mais voltaram.
Desapareceram no Rio do Tempo.
O Rio do Tempo faz todas as coisas desaparecerem.
Por isso nada é importante.
Nossas ansiedades também estão destinadas ao Rio. Também elas desaparecerão em suas águas.
O seu sofrimento se deve a isso, que você se sente importante demais, que você não presta atenção na voz do Rio.
Quando nos sentimos importantes nós ficamos grandes demais. E junto com o tamanho da nossa importância cresce também o tamanho da nossa dor.
O Rio nos torna pequenos e humildes.
Quando isso acontece a nossa dor fica menor.
Se você ficar pequeno e humilde como nós, você perceberá que somos parte de uma grande sinfonia. Cada capim, cada regato, cada nuvem, cada coruja, cada pessoa é parte de uma Harmonia Universal.” Diz aí o Rubem Alves e eu acrescento: Por isso é lindo o contraste entre nós e o céu, o pescador e o mar, a terra e o cosmos, o micro que contempla o macro que relativiza toda sede de poder e nos lembra que a dor é só uma experiência que passa no Rio do tempo, o que leva e modifica todas as coisas

Descobri meu jardim

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Hoje de manhã li um texto do Rubem Alves que falava sobre um terreno que mantinha na Serra da Mantiqueira, sem muita utilidade, selvagem, crescendo desordenadamente, mas que fazia bem saber que preservava aquele pedaço de chão para recolocar o espírito em ordem, mais ou menos como fazemos com os jardins.
Jardins não servem para muita coisa, mas o que seria do mundo sem eles? Dizem por ai que Deus andava cansado do cosmos enorme e solitário e resolveu criar um planetinha só para plantar um jardinzinho que depois foi infestado por pragas devoradoras. Mas essa é outra estória.
Eu também tenho um jardim. Sou urbano, nasci em São Paulo, moro em uma capital e reconheci o meu ao ler o texto: A rádio Inverso.
Por favor não leia esse texto como propaganda da rádio, mas a constatação de um jardineiro que cuida das plantas, que se relaciona com os pássaros (a maioria dos pássaros que visitam o meu jardim são da espécie “quietinhos”), tem os que eu sempre vejo nas árvores, cantam alto, até serpentes encontrei no meu jardim.
Já me disseram para vender as maças que produzo, que sou idealista demais, que poderia muito bem plantar árvores que se transformariam em móveis caros.
Eles não sabem que meu jardim não serve para nada e é ai que mora a beleza.
Vou quando quero, alimento os pássaros e me alimento das frutas.
Em determinadas épocas tenho menos tempo, talvez menos vontade mesmo para podá-lo, em outros me dedico mais , mas a natureza sempre dá um jeito de torná-lo belo.
Eu não sabia que minha rádio era um jardim. Achava que não tinha nenhuma vocação para jardineiro, mas até que estou me saindo bem.
Vou andar mais atento. Deve haver mais jardins pelo caminho.