O menino e a fresta

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O menino estava cansado.

Sentado em um canto da sala mexia distraidamente nos brinquedos que os adultos compraram para que ficasse quieto. Crianças costumam fazer perguntas inconvenientes.

De vez em quando prestava atenção nos homens que falavam sem parar. Não se interessava pelos assuntos propriamente, mas reparava nas intensidades, nos tons alterados, no jeito como defendiam suas ideias como quem defende a própria vida.

O menino estava cansado das vozes sobre vozes, da luz artificial, do ar abafado, pesado por tantas arrogâncias.

Levantou-se do canto, saiu e ninguém viu.

Do outro lado, em outro cômodo, havia uma fresta. O menino caminhou em direção a fresta.

A luz do sol penetrava o pequeno espaço e modificava ligeiramente o ambiente.

Pela fresta entrou brisa, depois barulho de vento que trouxe parte do som  de pássaros e das folhas que balançavam no lado de fora. Começou a chover.

Quieto, o menino ouviu.

Gotas na terra molhada, no topo das árvores, relâmpagos cortavam o céu e modificavam a iluminação assustando animais que corriam em busca de abrigo. Havia um mundo selvagem no lado de fora, completamente alheio às discussões acaloradas na outra sala.

Olhando pela fresta o menino temeu. Agora um estrondoso trovão.

Fecha os olhos instintivamente e recua. Pensa em voltar correndo para o ambiente seguro protegido por luz artificial e vozes abafadas. Pensa na segurança do canto na sala, os brinquedos, as distrações de sempre.

A chuva continua, o menino abre os olhos. Sente a brisa gelada no rosto e o medo diminui. Sem medo repara na beleza do cenário e decide abrir a janela.

Agora o menino brinca na terra molhada. A chuva parou e um raio de sol penetrou as  nuvens carregadas que lentamente escasseiam e evidencia os contrastes da paisagem.

O menino está do lado de fora e brinca no jardim.

Dentro da casa, fechados na sala, os homens, emburrados, continuam a discutir.

 

 

 

 

 

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