O extraordinário do ordinário

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Um amigo saiu em férias.

Mesmo sem nos falarmos há algum tempo, as fotos estão no livro das faces:  Primeiro o painel de voos no aeroporto indicando “partida para Nova York”. Depois, óculos escuros pela quinta avenida, e a legenda “comprinhas básicas”. “Meu cantinho na big aplle”, a frase acompanha uma selfie em uma cafeteria chique.  Tem outra, dentro de um carro alugado: “rumo a Route 66”. Fiquei cansado e fechei o tal Face.

Nada contra NY, muito menos contra meu amigo. Que ele aproveite suas férias e volte feliz.  Mas quando voltar, terá que lidar com ordinário do cotidiano. O porteiro do prédio, o trânsito, o trabalho, a cidade, tudo o que faz meu amigo pensar que bom é viver (e registrar) o extraordinário. É possível que passe o ano juntando dinheiro para, nas próximas férias, viver tudo de novo.

Acontece que o extraordinário para meu amigo é o ordinário para os moradores de NY. Eles devem estar cansados de congestionamentos, suas dificuldades, suas violências múltiplas.  Provavelmente quando viajam, buscam e registram o extraordinário em algum lugar: no campo, na praia, ou algum cenário que não se pareça com o de todos os dias.

Somos bichinhos engraçados, sempre distraídos, em busca de alguma coisa.

O convívio com o extraordinário costuma gerar desencanto. O extra se transforma em ordinário. Ordinário porque nos acostumamos. Então sairemos em busca de outra cidade, outro trabalho, outra mulher, outra aparência, sempre, sempre, sempre, até nos cansarmos de novo.

No cansaço temos uma chance de aprender. Há novidade em todos os dias e nenhuma relação será, no instante seguinte, como foi. Tudo se renova diante de mentes que se mantem abertas para o extraordinário.

Ele não está em uma cidade, ou evento, ou situação específica, mas na percepção do simples, selvagem, o que habita em todas as coisas e se faz presente sempre que a gente enxerga.

Talvez seja isso: Tudo é sempre repetição de algo, ordinário, até que o extraordinário se projete no olhar.  A busca deixou de ser necessária. A vida, extraordinária.

 

 

A beleza

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Nada é propriamente belo porque a beleza não fica.
Ela passa, como o vento.
As folhas mexem e traduzem a passagem, ou as águas, movimentam-se, porque o vento as tocou.
Um dia o jardim enfeia, o corpo desfaz, as paisagens viram selva de pedra e depois outras coisas.
A beleza aparece, deixa-se ver e vai. 
Não é fixa, nem domesticável. Etérea, beleza, que mora nos instantes.

O menino e a fresta

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O menino estava cansado.

Sentado em um canto da sala mexia distraidamente nos brinquedos que os adultos compraram para que ficasse quieto. Crianças costumam fazer perguntas inconvenientes.

De vez em quando prestava atenção nos homens que falavam sem parar. Não se interessava pelos assuntos propriamente, mas reparava nas intensidades, nos tons alterados, no jeito como defendiam suas ideias como quem defende a própria vida.

O menino estava cansado das vozes sobre vozes, da luz artificial, do ar abafado, pesado por tantas arrogâncias.

Levantou-se do canto, saiu e ninguém viu.

Do outro lado, em outro cômodo, havia uma fresta. O menino caminhou em direção a fresta.

A luz do sol penetrava o pequeno espaço e modificava ligeiramente o ambiente.

Pela fresta entrou brisa, depois barulho de vento que trouxe parte do som  de pássaros e das folhas que balançavam no lado de fora. Começou a chover.

Quieto, o menino ouviu.

Gotas na terra molhada, no topo das árvores, relâmpagos cortavam o céu e modificavam a iluminação assustando animais que corriam em busca de abrigo. Havia um mundo selvagem no lado de fora, completamente alheio às discussões acaloradas na outra sala.

Olhando pela fresta o menino temeu. Agora um estrondoso trovão.

Fecha os olhos instintivamente e recua. Pensa em voltar correndo para o ambiente seguro protegido por luz artificial e vozes abafadas. Pensa na segurança do canto na sala, os brinquedos, as distrações de sempre.

A chuva continua, o menino abre os olhos. Sente a brisa gelada no rosto e o medo diminui. Sem medo repara na beleza do cenário e decide abrir a janela.

Agora o menino brinca na terra molhada. A chuva parou e um raio de sol penetrou as  nuvens carregadas que lentamente escasseiam e evidencia os contrastes da paisagem.

O menino está do lado de fora e brinca no jardim.

Dentro da casa, fechados na sala, os homens, emburrados, continuam a discutir.