Ciclos

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A madrugada morreu.
Perdeu-se no ar gelado entre canto de pássaros que celebram a chegada da manhã.
Virá a tarde, decompondo-se lentamente até que a noite se imponha.
Quando a noite chegar, morrerei.
Verei o céu e o mar, meu corpo de infância entre memórias que ainda são. 
Um raio de sol me trará de volta.
Será a morte da madrugada. Mais uma.
Nascerá a manhã, outra manhã que daqui à pouco morrerá.

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Somos respostas

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Somos respostas.
Acreditamos estar no controle, pensamos conhecer a natureza de nossas ações, mas somos respostas.
Respostas ao mundo onde vivemos.
Respostas aos pais, aos avós, aos bisavós, gente que nem sabemos que um dia existiu.
Tudo o que fazemos responde a algo que provavelmente nem temos consciência.
Somos pontas de galhos, milhares, milhões, bilhões de galhos de uma árvore enorme.
Cada galho enxerga-se autônomo, mas estão ligados uns aos outros alimentando-se da mesma raiz.
Todos respondem, sempre respostas.

Formigas

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Acordou e percebeu-se formiga.
Todos formigas!
A grande e venerada rainha e seus serviçais, os soldados e os inimigos, a população, a família, todos com suas vidinhas de formiga.
Os castelos nada além de formigueiros, os trabalhos, as pedrinhas que carregavam com tanto sentido, formigas, formigas , formigas, uma sobre a outra, formigas nascendo e morrendo, formigas esmagadas por pingos d´água, formigas a imagem e semelhança de seus deuses formigas, formigas em guerra, em cruzadas, em fila no meio da grama.
Formigas sábias, formigas ignorantes, pecadoras, santas…Formigas!
Percebeu-se formiga e deixou de ser como as outras

A natureza de minhas virtudes

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Reconhecer a natureza dos meus defeitos é relativamente simples. Um pouco de honestidade é suficiente para deixar de arrumar culpados e assumir meus tantos limites. Isso me enobrece, me valoriza com ser humilde.

Difícil é reconhecer a natureza de minhas virtudes. O que era motivo de orgulho, revela-se resposta de movimentos que não gostaria de assumir, mas que, ainda sim, fazem parte do que sou.

Tenho tentado prestar atenção nisso.

Aos 43 anos não é difícil admitir meus defeitos. O desafio é jogar luz sobre minhas virtudes, reconhecendo que, em grande parte, defeitos e virtudes não passam de respostas diferentes para as mesmas questões.

 

 

 

Luz sob a fresta

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Quer saber como aconteceu?
Primeiro a luz escorreu timidamente sob a fresta.
Os olhos irritados, acostumaram a ver.
Depois abriu a janela e por último a porta.
Vê aqueles expostos ao sol? 
São os que perderam o medo e saíram.
Os outros?
Continuam trancados, apavorados, vedando qualquer entrada de luz. Não, não querem ver.
Para eles a luz é uma ameaça e os que saíram, malditos pecadores.