As oito bexigas

Padrão

Todas sorriram na última foto. Sorriram sem saber que seria a última juntas. Ontem uma delas partiu sem aviso e sobrou a pele murcha, vazia; pálida semelhança com a que sorriu na última foto.

Agora elas velam. Com o tempo outras também partirão e a imagem da festa sobrará no retrato, ou na memória das que forem por último. Depois o retrato se perderá e ninguém mais falará sobre as oito bexigas da festa.
O que sobrou vai decompor, outras virão e terão o mesmo fim, como sempre acontece.
Ontem, quando uma delas partiu, rompeu a pele vermelha e voltou a ser sopro de menino. Libertou-se da embalagem festiva e ganhou ares, voltou a ser fôlego, enamorou-se do vento, voou.
Sobraram sete bexigas e elas choram suspensas no ar.

Vivemos em busca!

Padrão

Já reparou como sempre nos falta alguma coisa? Vivemos em busca! Fazemos guerras e escrevemos poesias, vamos às igrejas e consumimos, construímos cidades, fazemos ciência, filosofia, arte, casamos, viajamos, temos filhos, tudo porque buscamos. Nossa falta é a falta do mundo inteiro; o vazio descrito por Agostinho como “a falta de Deus”. Incompletos por sermos maiores do que os espaços que ocupamos.

O deslocamento do tempo

Padrão

O tempo nunca morre, apenas se desloca. Movimenta-se de fora (a experiência) para dentro (a memória) e fica. Quando entra na gente, se mistura com nossa essência e transforma o que foi naquilo que estamos nos tornando.

Humanidade

Padrão

A humanidade é um indivíduo em movimento no universo. Ele é composto por aproximadamente 108 bilhões de células, humanos que estão ou estiveram aqui, entre os quais eu e você. Tudo indica que esse individuo ainda vive a infância, faz muitas bobagens, e seu amadurecimento depende do amadurecimento de cada uma de suas células. Cada mínima expressão de consciência, de cada célula, representa um passo nesse processo. Quando terminar, iniciará outro, e depois outro, e depois outros movimentos que nem temos ideia do que será, mas terá partido de cada um de nós, células desse grande corpo que chamamos humanidade.

O terror do medo

Padrão

O terrorismo se alimenta do medo.
As bombas, as mortes, as ameaças, integram um gigantesco palco e a platéia somos nós.
Poucos reivindicam os créditos, geralmente o Estado Islâmico, os loucos carrancudos de barba que não costumam fazer reivindicações claras. Não é necessário.
O medo é um mercado capaz de eleger políticos, mexer nas bolsas, nos juros, nos bancos. Nesse caso, o anonimato faz bem aos negócios.
É por medo que negociamos nossa privacidade e aceitamos agradecidos que o governo nos vigie.
O medo nos acua, nos torna submissos, nos posiciona em busca de abrigo. Consumimos mais notícias, pagamos mais seguros, buscamos mais religiões, nos protegemos, investimos, compramos o que não é necessário.
Ontem o mundo sentiu medo de novo. Não se trata do caos na segurança pública brasileira e suas mortes cotidianas, nem as barbaridades cometidas contra humanos nas guerras do dia a dia. Estamos chocados com o terror em Barcelona, estamos com medo, muito medo.
E o terrorismo se alimenta do medo.