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livro Mensagens 2

Não acredito na nova era

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Não escondo de ninguém meu ceticismo em relação a tal nova humanidade da nova era. Tem muita gente que vê. Eu não.

Confesso que me esforço e tudo que vejo são movimentos naturais de avanço tecnológico, cientifico, aprimoramento de leis, debates sobre ética, mudança de linguagem, mas, adiante, depois de determinadas fronteiras, vejo a humanidade exatamente igual ao que sempre foi.

Jesus seria crucificado novamente. Os mártires seriam os mesmos e a resistência em quebrar paradigmas se expressa eloquentemente em nossos valores politicamente corretos, em nossa resignação em nos mantermos como sempre. Veja a política, veja as religiões, veja a sociedade.

O que há de promissor a não ser pequenos movimentos promovidos por indivíduos? Há muita gente do bem e reconheço a importância de tantos que trabalham para minimizar o sofrimento do outro, mas, vejo esses vaga lumezinhos como um beijar flor apagando o incêndio em uma floresta. O fogo continuará.

Rubem Alves dizia o seguinte: “Sou um construtor de altares. Construo meus altares à beira de um abismo. Eu os construo com poesia e beleza. Os fogos que acendo sobre eles iluminam o meu rosto e aquecem o meu corpo. Mas o abismo continua escuro e silencioso.”

Quando escrevo meus textos, faço a rádio ou gravo meus vídeos sei que o máximo que posso fazer é falar com uma minoria interessada, mas o abismo continuará lá.

É por isso que meu trabalho sempre será para minorias. Jamais serei popular, a não ser que mude meu discurso e comece a dizer o que as pessoas querem ouvir. A consciência de que a massa sempre será massa, informe, instintiva, inconsciente, me tira a avidez de penetrá-la.

Apesar de minha incredulidade em relação as massas, creio nos indivíduos.

Como sempre aconteceu na história, esses serão em menor quantidade, terão dificuldades em serem compreendidos por um numero maior de pessoas, serão vistos como utópicos ou sonhadores. Indivíduos não aderem às massas porque não aceitam modelar-se. As massas tendem serem homogenias, os indivíduos não. Esses preferem manterem-se íntegros na própria consciência e, por isso mesmo, reconhecem o movimento da vida, as quebras de paradigmas e sabem que tudo acontece dentro, no secreto, em simplicidade.

Não precisam da legitimação das massas, são indivíduos e, por isso mesmo, projetam sua individualidade em direção ao outro, não como “humanidade”, mas como humano, como gente. Não posso ajudar a humanidade, mas posso ajudar um humano. Meu discurso é dissolvido com facilidade no meio das vozes da humanidade, mas, entre humanos, ele penetra.

Quando vejo uma multidão não vejo ninguém, mas se quiser, nela, verei indivíduos.

Quem pensa assim não adere a nenhum movimento de massa (esses sempre massificarão mesmo os bem intencionados), não elege mestres, não admite fixar-se, seja na mais “iluminada” das ideias. Aceita que a vida é movimento e caminha.

Esse enxerga o abismo onde constrói altares, mas como o poeta, sabe que tudo o que pode fazer é iluminar o próprio rosto e permitir que essa luz ilumine quem está perto. Lá embaixo a escuridão continuará. Um altar a beira de um abismo.