Cantos e poesias

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Preencherei minha alma com sorrisos, minha mente com cantos suaves, meus olhos com poesia. Acolher o mundo em mim para que desabroche e cresça como árvore que dá sombra e frutos.

Outra história…

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Não há outro instante. O que há é um único momento, uma dimensão chamada tempo, que nos alimenta a impressão de que a vida é linear: começo, meio e fim. Como se o passageiro na janela do carro não pudesse conceber a ideia de que o cenário não está em movimento. É ele que está.
O espaço é uma dimensão do tempo. Sem tempo não há espaço e tudo acontece no mesmo instante, no mesmo lugar. Mas “lugar” é espaço, nossos corpos são “espaços”, alguém diria com razão. Isso porque nossa mente não é capaz de pensar fora das dimensões tempo e espaço. Tudo o que vemos é linear, cronológico, temporal, egoico.
Intimamente não creio que seja apenas isso. Você já sentiu que esteve em lugares onde esse corpo nunca foi? Um cheiro, uma música, uma saudade, um insight… Fragmentos de memória que remetem à realidades que aparentemente nunca existiram.
Então, um sonho. Então, um sentimento. Então uma nostalgia de qualquer coisa simples, como uma noite banhada pela lua, o vento calmo, o clima sereno, uma musica antiga tocando em um rádio distante enquanto você, parado diante de uma casa branca, velha e confortável pensa em buscar o carro e aproveitar a noite com alguém especial.
Você entra no carro e vê o mundo com naturalidade. Tudo funcionando como sempre, tudo dentro da normalidade e nem imagina que outro você, em outro “lugar” sonha com aquele instante. Uma invasão do inconsciente atemporal, livre para penetrar membranas que separam dimensões e, nem que seja em um lapso, experimentar parte de uma realidade que é sua também, mas agora deixou de ver. Acordou.
Levantaremos e seguiremos nossas rotinas. Continuaremos experimentando as sensações, os pensamentos daquele dia como tantos outros sem ao menos cogitarmos que essa vida representa um fragmento de nossa Vida; a de agora, a de “ontem”, a de “amanhã”, tudo acontecendo simultaneamente e, vez ou outra, interferindo sutilmente em nossos cenários cotidianos sempre tão distraídos.
Quantos de “nós” existem por ai? Quem me garante que, em outra dimensão, não sou você e você sou eu? “Eu”, “você”, o que significaria o ego se tivéssemos clareza do que é a Vida e do quanto enxergamos fragmentadamente?
Uma criança feliz corre à beira de um rio e de repente para, curiosa diante de um bichinho que se esconde assustado. Uma mulher cansada da vida vê a cidade diante da janela do apartamento e decide que não vai continuar.
Um idoso levado pelos filhos preocupados ao hospital sente que não acordará depois da cirurgia.
Um homem descarrega batatas do caminhão e se apressa, a feira vai começar daqui à pouco.
Você termina de ler um texto na internet, pensa um pouco sobre o que leu e depois esquece.
A criança, a mulher, o idoso, o homem, você. Expressões de uma coisa só que no tempo e espaço não sabe que existe ao mesmo tempo, que habita todos os corpos, que todos somos um.
Não há outro instante. O que há é um único momento, uma dimensão chamada tempo, que nos alimenta a impressão de que a vida é linear: começo, meio e fim. Intimamente creio que essa não é toda história.