O começo das revoluções

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Onde começam as revoluções? Olhando historicamente identificaremos a tomada de um espaço, o rompimento de países, o descontentamento de um setor que termina em mudanças radicais.

Na maioria dos casos é possível traçar no caminho um ponto de partida, o start de algo maior que adiante será chamado de revolução.

No entanto, quem pode saber ao certo? Antes do primeiro evento histórico houve uma sucessão de pequenas coisas que se tocaram, coincidências, movimentos tão sutis que jamais seriam capturados pela lente da história.

Uma dona de casa socada no tanque de lavar, infeliz, sente naquela manhã nublada que definitivamente está tudo errado. Já era um incômodo antigo, mas a indiferença do marido e agora dos filhos repercutiram com mais intensidade depois de passar a noite anterior esperando em vão que alguém lembrasse o seu aniversário. A dona de casa jamais saberá que sua insatisfação se projetará em pequenas escolhas, em distanciamentos lentos, mudanças de posturas que interferirão na rotina de gente que será tocada por isso. Todos são. Sempre.

Ela nunca saberá que as emoções sofridas, especialmente as mais intensas naquela manhã nublada, desencadeariam uma sucessão de coisinhas pequenas, e outras, e mais outras que mexeriam em humores, interfeririam em rotinas, alterariam caminhos com extrema sutileza, até que, adiante, sutilezas gerando sutilezas, chegariam naquele ponto onde a história identificou como o start da revolução.

Foi a dona de casa. Foi o marido. Foram os filhos. Foi o que levou cada personagem a fazer suas escolhas. Foram todos que jamais saberão.

Nenhum de nós pode enxergar até onde nossas escolhas irão. Se ficarmos atentos veremos o que estiver imediatamente perto e mesmo assim dificilmente prestaremos atenção.

Seja quando ocupo um espaço físico que outro deixou de ocupar, quanto me atraso alguns segundos, quando olho para cá ao invés de para lá, o que falo, o que penso, o que faço, o que sou desencadeando reações, reposicionamentos, escolhas que provocam outras, que mexe com gente que não faço ideia, até que adiante se transforme em algo maior.

Mas não tenho controle sobre isso. O que posso é seguir atento consciente que sou como um semeador. Minhas escolhas são como sementes que o vento espalha. Algumas se transformarão em árvores lindas, outras morrerão, cairão em terras improdutivas.

Somos todos responsáveis de alguma maneira e projetamos um desencadeamento de pequenos movimentos históricos que refletirão adiante, nos transformando em participantes de eventos que olhamos de longe sem cogitar que saiu da gente também.

Não são os marcos históricos, muito menos os pontos de partida identificados por quem conta depois que aconteceu. Nossa história é a história de cada escolha, cada humano que está ou esteve aqui, mesmo os que viveram sem enxergar sentido em nada, com o gosto amargo da insignificância, lamentando a indiferença de gente amada. Como a dona de casa que morreu amargurada sem saber que naquela manhã nublada, naquele tanque, naquele instante, uma revolução estava nascendo.

4 comentários sobre “O começo das revoluções

  1. Flávio! Bom dia, na contra revolução meu tempo ficou escasso…
    Amigo como é bom ler você!
    Quanta doçura, quanto ensinamento, quanto carinho.
    Você nos toca a alma, você é a revolução.
    abraços e bjs fraternos
    MP

  2. flaviosiqueira

    Todos somos, querida MP, obrigado pela presença sempre tão carinhosa. Abraços e beijos pra você também !

  3. Prá Refletir

    Neste mês… neste ano a revolução começou… impresionante sincronia… Como não crer na linha. Invisivel do tempo? Como desprezar tudo isso e deixar ir … IMPOSSÍVEL.

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