Por que preciso olhar para tragédias e aceitá-las?

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Um dos assuntos sugeridos em nosso encontro de Maceió foi a natureza e a “aceitação” do mal. Uma das presentes descreveu uma situação difícil, um acidente sofrido pelo irmão que gerou nela dois tipos de sentimento: revolta pelo ocorrido e estranheza pela reação do acidentado que disse “apesar da dor isso me trouxe coisas boas, por que você não percebe?”.

Por que preciso olhar para tragédias e aceitá-las? – ela perguntava. Não vejo como entrar nessas histórias difíceis como se nelas houvesse algo bom.- concluía.

Um Tsunami é bom ou mau? – perguntei. Ela disse que é mau. Concordei que saber que tanta gente morreu, pais perderam filhos, esposas perderam maridos, gera intenso sofrimento, mas, apesar disso, o Tsunami não é bom nem mau, é um efeito da natureza, assim como os vulcões, terremotos, assim como a morte.

Há eventos, como o acidente que o irmão dela sofreu, que nos inquietam, assim como existem graus de sofrimento que não imagino a dimensão, como a dor de perder um filho por exemplo, mas ainda assim, “bem” e “mal” são condições projetadas pelo olhar.

Entenda: Mesmo que doa, ainda que haja intenso sofrimento e o luto seja inevitável, os efeitos de cada situação estão diretamente vinculados ao que nos habita. Basta um pequeno exercício de consciência para concluirmos que já experimentamos situações “más” que nos fizeram bem, assim como outras que talvez tivéssemos esperado e chamado de “boas”, mas nos fizeram mal.

Obviamente que há eventos coletivos gerados pela maldade humana, a história está repleta deles e não tiro a responsabilidade de quem os causou, mas falo sobre os indivíduos, os efeitos, as vítimas desses algozes, mesmo que tenham perdido a vida, cada um enxergou a própria experiencia a partir de uma perspectiva única. O filme “A vida é bela” de Roberto Benigni é um exemplo lindo e bem humorado dessa possibilidade.

Sentir dor é humano, sofrer faz parte da caminhada, muitas vezes não é opcional e não é sobre isso que estou falando. Me refiro a percepção que nos aquieta mesmo enquanto dói e permite que passemos pelo sofrimento conscientes de que tudo o que acontece será imantado pelo significado que projeto.

Você só pode enxergar nos acontecimentos o que é real dentro de você. Ninguém disse que seria fácil e tantas vezes as experiências nos parecem injustas, pesadas demais. Mas – eu dizia para quem me perguntou – se nos habituarmos a não ter pressa em julgar o que quer que seja como sendo “bom” ou “mal”, se, apesar da dor, mesmo que seja pesado, mesmo vivendo uma aparente tragédia, esperarmos um pouquinho mais, sem pressa, sem julgamentos, experimentaremos a possibilidade de sairmos melhores.

Não escolhemos quando vai doer e, se pudéssemos viveríamos apenas de alegrias em alegrias. É claro que sim! No entanto, se finalmente aprendermos que acontecimentos nos refletem, que não temos consciência plena do que é bom ou mau, que nada carrega um significado absoluto até que seja preenchido por nós mesmos, nos pacificaremos diante da vida até identificarmos com clareza que, mesmo aquilo que chamo de tragédia, carrega inúmeras possibilidade de amor.

Quem se aquieta, percebe.