Dê graça de graça

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Entregar-se a grandes causas é lindo, mas adoecerá se não for precedido pela disponibilidade de entregar a si mesmo sem nenhum tipo de expectativa.
Antes de qualquer coisa doar implica em entregar-se. É a consciência de que ninguém é maior ou menor, mas todos tem algo à contribuir com o que é.
Doar não é sinônimo de dar alguma coisa específica. É doar-se para a vida, colocar-se no fluxo natural onde tudo é de graça. 

Até que deixemos de ser

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Jovem político promissor, liderança emergente, renovação na política, representante de um novo pensamento ético, era assim que a imprensa e os colegas políticos se referiam ontem a Eduardo Campos, falecido em acidente aéreo.

Eu estava em São Paulo, tinha terminado de gravar os Insights na ACTV e seguia no carro para encontrar com meu pai. Liguei o rádio e me deparei com a descrição de um acidente aéreo. Me chamou atenção que mais ou menos no mesmo horário da arremetida da aeronave em Santos, a poucos quilômetros dali, o avião que me trazia também arremetia em Guarulhos. Ontem o tempo estava ruim, visibilidade nos mínimos, muito vento. Depois a informação da morte do candidato a presidência da república.

Todos chocados, muita tristeza, não só por Campos, mas pelos outros ocupantes do Citation, especialmente as famílias que agora choram.

Não quero fazer análises políticas, muito menos aeronáuticas. Também não vou tentar explicar porque tragédias acontecem e caminhos aparentemente bem estruturados e promissores podem ser interrompidos bruscamente. Acho desnecessário falar sobre a brevidade da vida, a necessidade de valorizá-la, de estar perto de quem ama, especialmente por não sabermos quando será a última vez.

Quando coisas assim acontecem, muitos param, nem que seja por alguns minutos, saem do fluxo dos pensamentos incessantes, do corre e corre, da hipnose coletiva e questionam o falso sentimento de controle sobre os dias: Hoje estamos aqui, e daqui a pouco, como será?

Foi essa pergunta que um homem que sentou-se ao meu lado fez enquanto esperávamos o voo da volta na sala de embarque. Um outro, no café, olhava para as imagens da TV com perplexidade e pensava alto “.. e o pior é que pode acontecer de repente com qualquer um.”

Sim, pode acontecer com qualquer um. A dez mil metros de altura, vendo as luzinhas lá embaixo, cada uma representando um ponto de consciência, todos vivendo suas vidinhas, seus afazeres, suas rotinas tantas vezes tão automáticas, os planos para o dia seguinte, as pre-ocupações, os trabalhos a fazer, eu via pela janelinha do avião e pensava no Campos, nas pessoas, em todos nós, seres conscientes de si mesmos que nascem sem que tenham pedido, vivem sem saber a razão e morrem sem nunca ter tido controle sobre nada, apesar de pensarem que tem.

Tragédias nos lembram que a sensação de controle é ilusória. Elas nos redimensionam e nos deslocam do fluxo de nossa arrogância. De repente não há mais político promissor, nem empresário arrogante, nem phd intelectual, nem nada que seja maior do que nosso verdadeiro tamanho: consciências que habitam corpos perecíveis, humanos por enquanto, até que, em um dia qualquer, a história se desfaça e os corpos se dissolvam. Ficará o que somos e, sobretudo, o que promovemos como seres conscientes de que cada dia pode ser o dia final.

Hoje estamos aqui, daqui a pouco, como será?