Como um trem

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Ontem dei um abraço em meu sogro pelo dia dos pais. Ele tem 84 anos, nasceu muito pobre em uma família que dependia do que produzia no pequeno espaço de terra que tinham em Ponta Grossa, interior do Paraná. Faziam vinho, salame, plantavam verduras, colhiam frutas, tudo com muita simplicidade.

Ele conta que usou sapatos pela primeira vez depois dos dez anos de idade. Ainda muito cedo mudou-se para o Rio de Janeiro, foi estudar e arrumar trabalho. Morou sozinho, se privou de muitas coisas até que lentamente a vida começou a melhorar.

Mudou-se para o interior do Rio Grande do Sul, formou-se em direito, casou, teve filhos, descasou, casou de novo, teve mais filhos, prosperou, viveu muitas coisas até chegar a idade que está. Apesar de alguns probleminhas de saúde, nada sério, está inteiro, dirigindo, trabalhando e cheio de disposição.

Estávamos só nós dois, nos abraçamos apertadamente, dissemos algumas palavras, ele fez as recomendações de sempre e emendou o que estava dizendo com o que estava sentindo, abaixou o tom de voz, os olhos ficaram úmidos…

“Flavio… Eu olho toda minha vida como se fosse um trem. Passou rápido, mal percebi. É tudo muito rápido.” Eu ouvia em silêncio.

“Não sei se existe alguma coisa do outro lado, há os que afirmam, os que tem dúvidas, sinceramente não sei. Mas sei que quero aproveitar cada segundo da oportunidade de estar aqui agora. Sei que hoje estou, que estamos todos aqui, mas e amanhã? É, a vida é esse trem…”

Depois, ainda no mesmo tom, confessou que, aos 84 anos não sabe mais nada. Disse que pensou que soubesse, que viveu inúmeras experiências,e, apesar disso, quanto mais vive, mais clara a sensação de que vai embora sem saber, como uma criança que ainda descobre, sedenta, distante de saber.

“A vida é um trem, Flavio, ele passa rápido demais…” Toquei no seu peito e disse que ele chegou aonde deveria chegar. Falei que ninguém sabe nada e só os que aprenderam alguma coisa chegam a essa conclusão. Chegamos aqui como páginas vazias, permitimos que a vida preencha as linhas, acreditamos estarmos maduros até que o tempo nos lembre o nosso tamanho diante do todo, a brevidade dos dias, os limites do caminho, o quanto não sabemos de nada.

Falamos mais um pouco, logo minha sogra o chamou para tomar um remédio, tínhamos de sair para almoçar, mas fiquei pensando na conversa. Pensei no quanto perdemos tempo com bobagens, deixamos que a vida passe sem aproveitarmos as pessoas, sem notarmos a beleza de estarmos aqui, humanos, vivos, juntos, expostos a tantas experiências, evoluindo até reconhecermos que jamais deveríamos perder o encanto pela vida, que há muito a aprender, que todo sentimento de posse é ilusão pois jamais carregaremos o que pensamos ser nosso.

Resta o vazio das linhas que não foram preenchidas. Caderno sem muitas teorias, algumas páginas propositalmente em branco, desenhos em outras, sem métodos, sem peso, apenas aberto ao infinito conhecimento que emprestará beleza aos dias, gratidão por cada experiência, consciência de que tudo é brevidade. Como um trem, que passa rápido demais.

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