Até que um olhar lhes desse vida

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Quando criança eu tinha curiosidade para saber o que acontecia com as coisas enquanto não olhava para elas. Por exemplo: Será que o vaso sobre a mesa da sala permanecia do mesmo jeito enquanto eu estava no quarto? E a sala, continuava sendo sala ou simplesmente se desintegrava até que ouvisse os passos de alguém e, ploft, se recompusesse como mágica?

E se algo parecido acontecesse com as pessoas? Meus amigos, meus pais, meus irmãos, todos que só ganhavam vida na hora em que eu olhava. Enquanto não os visse, eram habitantes da minha imaginação, caminhavam em minhas memórias, existiam apenas nas lembranças, todos esperando por um olhar que lhes desse vida.

Um olhar que lhes desse vida. Naquele tempo eu desconfiava que o mundo poderia ser um enorme vazio preenchido apenas pelo olhar do observador. Nada existia até que a presença projetasse vida, tudo passaria a existir somente enquanto observado.

Se eu tivesse razão, a vida inteira seria um como um jogo. Quase como se estivéssemos em uma dimensão qualquer, talvez em outros corpos, outro tempo, quem sabe dormindo e sonhando com essa vida, um sonho que parecesse durar a idade que temos, mas apenas um sonho. E se de repente, no dia de nossa morte, simplesmente acordássemos nessa tal dimensão pensando “que sonho maluco!”.

Com o tempo formei outras convicções. Aprendi que isso é coisa de criança, um completo delírio que jamais poderia ser alimentado por um adulto. Talvez essa ideia realmente não caiba na mente de um adulto. Talvez.

Seja como for, preciso confessar que intimamente não deixei de considerar essa possibilidade, a de que um dia acordaremos com clareza de tudo, a convicção de que a experiencia da vida foi uma projeção interior, cheia de símbolos, como se nós mesmos estivéssemos criando os ambientes, as pessoas, as situações, as emoções, tudo o que não existiria se não fosse projetado pelo olhar.

Seria como o vaso da mesa da sala, a sala que se materializava, as pessoas, apenas memórias esperando serem vistas, inexistentes até que um olhar lhes desse vida.