Depois do por do sol

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Depois que eu vi o sol nascendo pela primeira vez, ele nasceu em mim.
Quando se pôs, não sabia se iria voltar, mas algo dentro não apagou.
Veio a lua. Ela chegou. Algo novo, outra luz, branda, suave. Eu não sabia que refletia o sol e, quando foi embora, entendi que daqui de onde vejo, nada é definitivo.

Vi que a terra nasce todos os dias e morre em cada segundo. Nem as cores, nem os sons, os tons, nem as caras, nem as vozes, os uivos, os barulhos, os passos viram pegadas, as luzes viram sombras e depois se vão, nem o que eu vejo, nem o que penso. Tudo o que nasce e depois se põe. Tudo que brilha vira reflexo, depois apaga. Tudo o que é, deixa de ser. Vai.

O tempo que nasce e põe suas mãos sobre as coisas que vão, carregando-as para além do horizonte que não vejo. Eu só vejo o sol se por. Eu não vejo.

Reflexos. Combinações de cores, intensidades diminuem, alteram-se perspectivas, ciclos que terminam. Nada é definitivo. Nada é como parece. Só parece o que aparece no meu campo de visão. Eu não vejo.

E o tempo que me leva para depois do sol. No horizonte que se apaga, na luz que diminui, na sombra, densa, voraz, na escuridão que vira abismo, sem brilho, sem teto, sem chão, sem nada, vazio até que a noite termine. Nada é como parece.

Depois que eu vi o sol nascendo pela primeira vez, ele nasceu em mim.

Quando se pôs, não sabia se iria voltar, mas algo dentro não apagou.
Veio a lua. Ela chegou. Algo novo, outra luz, branda, suave. Eu não sabia que refletia o sol e, quando foi embora, entendi que daqui de onde vejo nada é definitivo.

Não é. Até que renasça no universo que sou, nas paisagens que me habitam, na luz que sai do olhar, no tempo que vira um instante, o único que há, o único que sou. Agora vejo. E o que vejo me basta. E o que me basta, me cala. E o que me cala me pacifica. E o que me pacifica não precisa mais de explicações. Silêncio. Agora vejo. 

sunrise

Carta aos avós

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Veja com serenidade: Uma homenagem às avós, aos avôs, aos avós. Uma carta que tem as palavras que não são as deles, mas que são para eles. A partir de “Carta a Josefa, minha avó” escrita por José Saramago. Por André Raposo e Maria Alice Amaro Gois

Desapegue

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Sabe como desapegar? Largue.

Solte sem medo de cair, sem pensar no depois, sem temer o que quer que seja. Somente respire, confie e largue. Nada está fixado em você, é você quem fixou. Nada se prendeu espontaneamente, é você que segura. A dor do passado, uma pessoa que lhe assombra os pensamentos, o medo do futuro, da escassez, da vida e da morte, por que está preso nisso?

Na verdade, nem é você: é sua insegurança, seu medo, sua carência, sua falta de entendimento em relação a não precisar do que lhe faz mal. Largue. Não há porque carregar um comportamento autossabotador, uma pessoa que suga suas energias, um trabalho que lhe dá razão para lamentar todas as noites de domingo e manhãs de segunda, terça, quarta…

Ser consciente é enxergar-se agora, é perceber os pesos que aceita carregar como se fossem carmas, como se precisasse daquilo, como se não houvesse nenhuma escolha. Sempre há. Portanto, repito, quer se desapegar de um medo, um trauma, uma dor, uma inquietação que lhe acompanha o tempo todo? É isso que você quer? Então não me venha com o famoso “mas é difícil” porque mais difícil é carregar toneladas nas costas diariamente, conviver com o medo, sentir-se vítima e mesmo assim você faz. Largue. Sem medo, sem argumentação, sem desculpas; largue.

Perceba que nada ou ninguém está preso em você, que sua felicidade não depende de ninguém, nunca, em caso algum, tudo mora em você. Sua intensidade, a maneira como se apega, se agarra, como se dependesse daquilo para viver, como se não houvesse vida dentro de você, como se tivesse nascido com isso é medo.

Quer desapegar-se? Deixe de pegar. Largue, deixe para lá e siga seu caminho em confiança, em paz, sabendo que, se faz mal, não fará falta, se gera angústia, melhor que fique lá atrás. Não complique. Apenas largue.

Aquietar-se é ser omisso?

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Flavio Siqueira, mas isso de silenciar e saber de si, dos seus processos e tudo mais, não é necessariamente ter uma atitude pacifista diante de tudo, é?!
Por exemplo, com o que está acontecendo na faixa de gaza, as pessoas estão sendo massacradas todo
s acham isso terrível, mas a ONU não intervém, e isso me lembra a guerra alemã… Não que eu ache que fazer mais guerras seja a forma de acabar com uma guerra já existente, mas me parece que não só numa situação tão conflitante, as vezes é necessário sair um pouco dessa norma de aguentar calado e deixar fluir de dentro de nós um sentimento mais cálido, como Jesus fez quando expulsou os vendilhões do templo ou amaldiçoou a figueira… Bem, não sei exatamente se esse foi o sentido do seu texto, mas foi o sentido que ficou latente pra mim, aquela visão de buda como iluminado. Poderia me ajudar, por favor?!”

 

– Essa é uma confusão muito frequente: Aquietar-se jamais será sinônimo de comodismo ou de omissão.

No primeiro caso a escolha é calar os ruídos que nos levam a tomar atitudes erradas, nos confundem, nos distraem.

Quem se aquieta ouve com mais clareza e discerne a hora de agir ou de calar, ir ou voltar. Como saber o caminho se você permanecer tomada por ruídos? No segundo caso, no comodismo e na omissão, há apenas respostas à mente, aos estímulos, a paralisação de um ser confuso.

É um engano associar quietude com omissão, assim como ilude-se quem vincula ação (seja ela qual for) com atitude. São coisas completamente diferentes

Ser consciente

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Ser consciente não é pensar que sabe o que é “certo ou errado”, isso não é um processo da consciência, mas da mente inquieta e moralista.  Ser consciente é, sobretudo, pacificar-se diante da vida, aquietar-se ao invés de gritar, parar, observar a si mesmo, discernir o que realmente merce estar ai. Esse é um processo pessoal, por isso não há fórmulas nem “manuais do ser consciente” a não ser a coragem para desconstruir-se, livrar-se das camadas sobressalentes, abrir mão de todos os excessos, esvaziar-se, até que sobre apenas consciência.

As resistências…

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Um “ser consciente” seja como for, esteja aonde estiver, falando a linguagem que melhor se expressa naquele momento, naquele tempo da história, naquele específico ambiente, encontrará resistência. Sempre.
Há um preço a pagar. Quem age por consciência, jamais se adequará, nem deve esperar pela aprovação da maioria. É por isso que tão poucos escolhem esse caminho.

Nossos mundos

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Nossas cidades abrigam milhares, milhões de mundos.

Elas refletem em suas curvas e contrastes, luzes e sombras, altos e baixos, nossas próprias mazelas interiores, nossos poços e nossos mares, nossos medos, erros e acertos, o que somos expresso em pequenas atitudes de solidariedade, de desapreço, em correria, pressa, desumanização vertical na mesma medida que deixamos de ser.

Nossas construções projetam no espaço o tamanho de nossa sede. Imagem do progresso, belezas da arquitetura que se estende sobre frágeis corpos apressados, estressados na eterna luta pela sobrevivência, fixados em miragens , desatentos… desalmados humanos.

A alma de cada cidade é a somatória das nossas almas. Nossa cultura, sociedade, planeta, apenas o reflexo de nossos mundos, de cada mundo, de cada mente.

Cercados por arranha-céus, sitiados pela massa, feitos anônimos pela multidão, sentindo-nos como peças sem importância, sem relevância, sem voz, cada individuo é um mundo e cada mundo um universo em potencial.

Seguimos o fluxo, cabisbaixos, atentos apenas as sombras que as luzes piscantes produzem com suas mensagens de consumo, trombando-nos, desviando dos vultos que cruzam nossos caminhos, sentindo-nos muitas vezes forasteiros, esquecendo-nos de quem somos.

Esses mundos que as cidades abrigam, essas almas que cada corpo carrega, que acordam todas as manhãs sem saber direito a razão, que chegam em casa todas as noites e dormem tentando entender os “por quês”, essa gente que segue com pressa e nem pensa para onde vai, que seguem a média, que aprovam a moda, que investem no medo, que habitam no mundo, talvez, se quiserem, despertarão e, como um piscar de olhos se enxergarão.

Verão o poder que lhes habita no contraste da fraqueza, a força que carregam nas dores de existir, a verdade que liberta, que conecta, que abre os olhos.

Cada mente que desperta dá a luz a um novo universo. Cada ser que se enxerga, cada humano que transcende a si mesmo e, como vagalumezinhos que brilham a noite, contagiam seu ambiente, influenciam sua geração, constroem seu próprio mundo que desfaz o cinza que nos habita e apaga a noite em nossa alma, esse olha para o mundo, a cidade em que vive, e apesar de forasteiro, brilha.

Você muda o mundo quando seu mundo muda em você.

A cidade continuará aonde está, e tudo como sempre foi, no entanto é o bom olhar que projeta no caos o equilíbrio e permite que um dia nossos mundos se cruzem, se abracem e completem, somando-se, crescendo na consciência de que uma mudança de olhar faz toda a diferença.

Nossas cidades abrigam milhares, milhões de mundos. Todos eles, vivem em sua mente.

Qual mundo você está criando?