Baixas de guerra

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Manter as coisas como são, acentuando as cores maquiavélicas para pintar bandidos e mocinhos, como se não houvesse conexões entre as pessoas e seus estilos de vida, como se não fizéssemos parte de um único planeta, como se fosse natural que vivêssemos em um lugar onde milhões de crianças morrem de fome todos os dias, sem roupa, saúde, família, cuidados de ninguém, enquanto celebra-se a lista dos homens mais ricos do mundo, enfim, manter as coisas como são, é fundamental para que se perpetuem.

Daí a razão de dizerem às massas que estamos no caminho certo e que a única maneira de garantir saúde e prosperidade às pessoas é alimentando o monstro que contraditoriamente as ameaça como fantasma, vigilante da fronteira entre o que sentimos ser o correto e nos dizem ser o possível.

E assim, embriagados por nossas próprias ambições, toleramos as baixas de guerra, negando-lhes a existência, vivendo como se a dor e a morte ali na esquina fosse normal, aceitável e, pior, necessária.

Sebastiao Salgado -terra

Isso deve bastar

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Ontem a noite um amigo revelou que desistirá de um trabalho bonito porque cansou. Cansou pela dificuldade em fazer-se entender, pela dor de socar ponta de faca e a frustração de enxugar gelo. Cansou de não ser remunerado enquanto os que só pensam em dinheiro parecem prosperar.

Chega a hora em que “ser consciente” cansa, ele disse.

Acontece que o mundo é um sistema fechado. Preso em suas crenças, valores, importâncias, conectadas umas as outras, criando uma roda perfeitamente engrenada que tenta se manter premiando os que se adequam e punindo os que criticam.

Por isso, o “ser consciente” seja como for, esteja aonde estiver, falando a linguagem que melhor se expressa naquele momento, naquele tempo da história, naquele específico ambiente, encontrará resistência. Sempre.

Há um preço a pagar. Quem age por consciência, jamais se adequará, nem deve esperar pela aprovação da maioria.

A remuneração não se vincula ao que normalmente projetamos como expectativas, nem mesmo as mais sinceras e ingênuas, como alimentar a ideia de que um dia as pessoas entenderão. Talvez sejam poucos. Talvez ninguém.
Não há garantias de prosperidade e sucesso exponencialmente proporcional ao tamanho da consciência. Há um preço a pagar.

Meu amigo estava triste, esperava que eu dissesse alguma coisa, mas eu não podia incentivá-lo. Não como ele esperava.

É por isso que tão poucos escolhem esse caminho, seja na área que for.

Diante de tantas expectativas que nos distraem, como dizer que nossa melhor remuneração reside no fato de saber que está aonde deveria estar?

É prosseguir o caminho coerente com a morada de dentro, consolidando fundamentos que ninguém vê, não dá dinheiro, não gera aplausos, não chama atenção da mídia, não fará de você nenhuma personalidade internacional. É preciso lembrar a si mesmo o valor de cada coisa e a certeza de que nenhum mundo compensa a vacuidade interior, tão alimentada pelas engrenagens que nos empurram.

Às vezes nos sentimos cansados, nosso sistema é feito para isso, mas então é preciso recordar do que vale a pena, das miragens que jamais substituiriam o valor da morada que cresce para dentro, reflete em meus olhos, vaza em minha voz e se estende inevitavelmente em tudo o que sou, transcende meu corpo finito e me projeta em outra esfera de compreensão da vida. Sou o que creio, sou o que escolho, sou o que vivo e a possibilidade de me manter coerente é a maior remuneração.

Medir-se pelo aparente sucesso de quem quer que seja só gerará frustração. É necessário prosseguir o caminho ciente das dores das desconstruções, conscientes de que nada se compara ao privilégio de caminhar, e no caminho encontrar-se, e no encontro enxergar-se, e no enxergar-se aquietar-se. É ser quem é e o que pode ser, suficientes, pacificados. um pouco mais a cada dia. Isso deve bastar. Essa é nossa remuneração.