Expectativas em nós

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O peso de carregar expectativas que colocam sobre nós aumenta na proporção que as alimento. Deixar de me preocupar com elas é uma forma de diminui-las. Carregar esse peso é uma escolha, muita vezes uma tentativa de manter uma imagem egoica, um jeito de não se expor. Desapegue-se disso e ficará bem.

Aprendendo a não criar expectativas

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Abrir mão de expectativas é desapegar-se. É um exercício necessário para que você enxergue com mais clareza, sem as distorções que as expectativas criam, especialmente porque, quanto mais fixada estiver, menos amplitude de olhar terá. Sei que pode soar lindo na teoria, mas na prática…

Pois é. Como praticar o desapego às expectativas com o marido, por exemplo? Com os filhos? A carreira? Em primeiro lugar devemos agir como quem resolve limpar um quarto sujo, fechado há muito tempo. Você abre as janelas, as portas, permite que a luz do sol entre e revele cada canto encardido, cada parede mofada, cada pedaço de chão imundo. O susto é inevitável e a sensação de impotência também.

O primeiro passo para não criar expectativas é enxergar-se e identificar o quanto tem alimentado esperanças em relação ao outro que não se conectam necessariamente ao que ele é, mas apenas se vincula ao que você pensa que precisa. É fácil alimentarmos carências e projetarmos no outro, portanto a pergunta que devo fazer é: “até que ponto estou projetando em alguém esse vazio que jamais será preenchido por quem quer que seja a não ser por mim?”.

Sempre que toco nesse assunto sinto que a maior dificuldade das pessoas é pensar que tem “direito” de esperar isso ou aquilo do marido, da esposa, dos filhos, enfim, como estar em uma relação sem esperar nada de ninguém? – questionam.

Admito que não é tão fácil e por isso vejo essa desconstrução como um processo que se aplicará em tudo, não apenas em uma relação. É um olhar para a vida a partir do entendimento de que tudo o que eu posso é desfrutar do agora, sem expectativas, sem fixações no futuro, sem projeções. É estar no hoje, deslocando meus filtros de interpretação para mim mesmo, ao invés de esperar tanto do outro.

E sabe por que isso é importante? Pela simples razão de que, mantendo-se presa às expectativas jamais terá clareza para enxergar uma relação como ela de fato é. É como querer limpar o quarto sujo sem acender a luz.

Uma vez que reconhece o nível de suas expectativas tem possibilidade de discernir o que as motiva até que finalmente entenda o quanto projetamos nossos vazios em nossas relações. Isso nos torna pessoas frustradas, porque se os vazios são nossos, um dia teremos que encará-lo.

Todos querem e merecem viver relacionamentos plenos. Espero que entenda que não estou dizendo para abrir mão de uma relação saudável, conectada, feliz, como se querer viver assim fosse criar “expectativas”.

Pelo contrário. O que estou dizendo é que antes de experimentarmos plenitude é preciso nos livrarmos da intrínseca tendência de projetar desfechos, criar cenários, distorcer a realidade esperando que tudo aconteça especificamente de uma forma. Pode ser que não seja exatamente como espera e pode ser que do outro jeito seja igualmente bom, mas você só perceberá quando aquietar-se em relação a isso.

Portanto, eu deixo de esperar qualquer coisa do outro quando finalmente entendo que é preciso enxergar o que me habita, o que está vazio, o que precisa de cuidado e de respostas honestas. É deixar que a luz do sol invada o quarto para começar a limpeza até que tudo esteja em ordem, os móveis no lugar, a sujeira removida. É projetar consciência sobre a inconsciência. Só assim poderei enxergar a relação com isenção suficiente para, sem cobranças, sem projeções, assumir até que ponto eu quero ficar ou ir embora, caminhar junto ou abrir mão. Essa escolha é sua.

Jamais devemos abrir mão da felicidade e de relacionamentos saudáveis, mas, para que assim seja, é fundamental aceitarmos que tudo começa em nós, em um coração pacificado, na coragem de enxergar-se, arrumar o que precisa ser arrumado, fixar-se no agora e abrir mão de sobrecarregar quem quer que seja com a ingrata responsabilidade de nos trazer felicidade. Esse trabalho é nosso e de mais ninguém. Fique bem!