Felicidade reverente

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Pra fechar esse assunto do jogo de ontem: Assisti a partida em casa  junto com meu cunhado alemão, ele vestido com camiseta da Alemanha. O Lennart comemorou até o segundo gol animadamente, depois, visivelmente constrangido, sentou quietinho no sofá e, em respeito a minha cunhada que sofria, parou de comemorar. Ele se posicionou de forma semelhante a seleção do seu pais, feliz, mas reverente, sem transformar a vitória em oportunidade para tripudiar ninguém. Parabéns aos alemães pelo jogo e pelo exemplo.

Qual tragedia?

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Não tenho nenhuma pretensão de comentar as razões táticas que influenciaram a histórica derrota da seleção brasileira para a seleção alemã. Felizmente não cabe a mim entrar no coro do “eu já sabia”, como se obviedades fossem suficientes para explicar o que houve. Mais do que posicionamento desse ou daquele, da falta de um ou de outro, da organização daqui ou de lá, enxergo o fenômeno humano impresso no pranto de tantos torcedores desolados.

Perder nunca é fácil, especialmente quando a perda está ligada a um sonho ultra alimentado artificialmente, da sensação de que, apesar de tudo, somos os “melhores do mundo” e comprovaremos nossa “superioridade” em campo, representados em onze jogadores que nos vingarão.

Vingarão o apoderamento dos cofres da república por quadrilhas com legendas de partidos políticos, vingarão nossa baixa estima como país de “terceiro mundo”, nossas cidades lotadas, violentas e mal cuidadas, vingarão o salário que não dura até o fim do mês e, pior, vingará o desconforto diante da vida que levo, daquilo que sou, ou pelo menos sinto ser.

Repare que, apesar do fenômeno se expressar em níveis diferentes da individualidade, há uma projeção coletiva presente na alma de um país que, perplexo diante da derrota, tem a chance de extrair importantes aprendizados.

Um deles é, refeitos do natural desconforto da derrota, definitivamente entendermos que não é uma seleção nacional de jogadores que constitui uma nação. Nação é formada por indivíduos conscientes de sua importância no coletivo e por isso mesmo atentos em como suas ações no dia a dia refletirão no dia de todos.

Isso se estende a tudo. Ao voto, as importâncias, a educação, as prioridades, a honestidade, a falta do tal “jeitinho” , ao senso coletivo, a prática do cotidiano que fragmenta o amor à nação em cada pequena atitude, ao invés de descarregar tudo na hora em que o hino nacional toca no estádio, especialmente porque jamais podemos amar uma “nação”, se esse amor não se projetar em amor aos indivíduos assim como, jamais amaremos indivíduos, se não aprendermos a nos amar.

No dia em que aprendermos a nos amar, não será mais necessário projetar-nos em nada. Seja no futebol, no trabalho, na comida, no marido, nos filhos, na religiosidade, em nada.

Nesse dia perderemos a necessidade de nos “vingarmos” e todo sentimento de euforia, substituído pelo equilíbrio que a pacificação consigo mesmo traz.

Futebol sempre haverá, vitórias e derrotas também, isso faz parte do jogo.

O importante é enxergarmos como nossas reações nos revelam e o quanto cada revelação aponta para algo muito maior do que o esquema tático de um time, mas aos nossos próprios vazios e necessidades de preenchimento, nossa busca por identidade, nossa auto afirmação na coletividade, sintomas de quem ainda não entendeu, mas entenderá, que tudo se equilibra quando equilibra na gente. Tragédia não é perder por 7 a 1, isso acontece.

Tragédia é nos esquecermos que o jogo mais importante não está em nenhum gramado que não seja nossa própria consciência, e nossa capacidade de nos enxergarmos com honestidade e coragem. Isso vale qualquer campeonato.