Flavio, o que pensa sobre a bíblia?

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Pergunta: “Flavio, você acredita no Deus da bíblia? O que pensa sobre a bíblia?”

Flavio: O problema não é a bíblia. O problema somos nós e o que fizemos com ela.
Transformamos a bíblia em “A palavra de Deus” e isso se tornou inegociável, mesmo que ali tenha contradições, mesmo que ela contenha expressões de povos, culturas, olhares antigos, mesmo que fale por metáforas muitas vezes e, como todas as metáforas, esteja aberta a interpretações, a olhares diversos.

Tudo tão distorcido, tão mal compreendido, tão parcial, que chegamos a criar o “Deus da bíblia”. Ora, que é afinal o Deus da bíblia?

O Deus do novo ou do velho testamento? O Deus longânimo e pronto ao perdão ou o Deus vingativo que manda seus profetas destruírem cidades, mulheres e crianças? O que é afinal essa construção que chamamos de “Deus da bíblia”? O Deus de Moisés ou o Deus de Jesus? O Deus metodista, católico, batista, o Deus da igreja Universal?

Na minha opinião a bíblia carrega a palavra de Deus, mas só enxergará quem entende que, não só a bíblia, mas a vida inteira carrega.

Há palavra de Deus nas minhocas, na terra, no fogo, no chão, no “céu” e no “inferno”.

Há palavra de Deus na contradição, nos dias difíceis e nos bons de viver.

Há palavra de Deus em você e em mim também.

Tudo carrega a palavra de Deus, portanto, não existe um “Deus da bíblia”, mas há Deus em tudo, ainda que o “tudo” não seja Deus, mas, ainda assim, “tudo” também carrega o que é.

A bíblia é uma fresta e, na minha opinião, só será compreendida se você tiver amplitude de olhar, profundidade de consciência, abertura para entender que as contradições entre histórias, a linguagem antiga, os cenários desconfortáveis tantas vezes expressam a história de um povo, de várias culturas, de milhares de anos onde o homem busca Deus e, à medida que enxerga reflexos, reproduz em sua cultura judaica, seus sacrifícios, seus profetas, suas guerras, suas angústias, suas festas, seus salmos, suas dores, seus enganos, sua fé.

Por fim, você me pergunta se creio no Deus “apresentado pela bíblia”.

Ora, creio que o Deus apresentado pela bíblia é uma parte restrita a expressão, ao olhar de um povo, nos limites daquelas histórias e daquelas compreensões.

Um vislumbre que reflete o retrato dessa busca, desse povo, desse tempo, com todas as suas contradições humanas (o que a torna bela!) e que jamais será compreendido se não observado sob a luz da consciência habitada por Deus, que não é o “Deus da bíblia”, mas é também.

Libertar-se do olhar religioso, das interpretações dos “especialistas”, da opinião dos “teólogos” e gente que só sabe de letras e fósseis é fundamental.

Quanto mais caminhamos, mais claro que pouco sabemos. Quanto mais reconhecemos assim, mais abertos, mais sensíveis, mais atentos aos movimentos de Deus, o Deus pessoal da bíblia, o Deus subjetivo do oriente, o Deus natureza dos índios, o Deus que habita a consciência de quem não se arrisca em defini-lo como “Deus” de nada, de ninguém, não o restringe à culturas, a moralismos, a teologias, a religiões ou definições cognoscíveis de nenhuma natureza e ainda assim, mesmo sem nome, mesmo sem quem o chame, continua o que sempre foi.

Sim, acredito no “Deus da bíblia”, e só consigo enxergá-lo lá, porque entendo que o “lá” é apenas um pequeno reflexo, a expressão de um povo entre tantos, um momento entre muitos, um entendimento que se reflete em uma parte importante da história humana e que pode me ajudar a enxergá-lo para além, bem além dela, mas que jamais encerra minha capacidade de percebe-lo, experimentá-lo, e, sobretudo experencia-lo.

No entanto, para isso é preciso fé, afinal, será preciso sair da canoa da religião, da mente religiosa, e descer nas águas profundas e misteriosas do oceano.

Será preciso nadar de verdade, enfrentar tubarões, medos, condicionamentos, admitir que não sabe, reconhecer os limites, encarar os fantasmas, as opiniões formatadas, dogmáticas, presunçosas, nadar meu amigo, nadar, se alimentar dos peixes que chegam, beber a água que há, descansar nos troncos que aparecerão, nadar sem pressa até o horizonte, até o ponto onde haverá descanso e, naquele ponto, pacificado, finalmente enxergará o que agora só vemos em parte.

A perfeita imperfeição

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Não busque a perfeição. Esqueça. Ser perfeito deturparia nossa condição humana, naturalmente ambígua, e nos transformaria em seres arrogantes.

Somos contraditórios e tropeçamos em nossos limites com muita frequência, portanto, insisto: deixe de cobrar perfeição de si mesmo, seria um peso que, acredite, lhe sobrecarregaria.

Mas, preste atenção, isso não quer dizer que deve se conformar com o quesente que precisa mudar. Eu e você carregamos níveis de condicionamento, de formatação, de limites auto impostos que precisam, aos poucos, serem vencidos. Basta enxergar-se com honestidade para chegar a essa conclusão.

Então, como fazer? Em primeiro lugar pacificando-se consigo mesmo. O primeiro sintoma da felicidade é pacificar-se com o que consegue ser hoje. Sei que não é o ideal, nunca é. Mas aceitar-se como pode, aquietando a mente inquisidora, é o início de tudo.

É preciso a consciência de que a perfeição inclui a imperfeição. Especialmente pelo fato de que nenhum de nós sabe com clareza o que é luz e o que é trevas, o que é bom e o que é mau, o que é perfeito e o que é imperfeito. Julgamos saber, mas nosso juízo é absurdamente limitado aos condicionamentos que, sem perceber, vamos anexando a mente e transformando em verdade absoluta. A certeza de que sabemos é o sintoma mais claro de quão distantes estamos da verdade.

A busca pela perfeição é utópica a começar por nossas próprias distorções, sutis tantas vezes, tendenciosas o suficiente para transformar algo genuíno em soberba.

Você duvida? Basta observar a historia humana e concluir como lindas ideias viraram ferramentas de manipulação, como insights iluminados foram se transformando em grossas e pesadas correntes mentais, como tanta gente que iniciou um caminho com boas intenções, com tantas coisas interessantes para compartilhar, perdeu-se na própria luz, até não enxergar mais nada. Cegueira branca.

Portanto, aquiete-se com o que é. Ninguém é perfeito, mas podemos ser melhores. Cada um enxergue a si mesmo com isenção e projete sobre o que vê a luz da consciência. Com o tempo vamos aprendendo a nos pacificar, até que a paz seja a água que nos lava de toda pretensão de ser o que não somos.

Nossa beleza habita em nossa humanidade e nossa humanidade, contraditória, ambígua tantas vezes, é o caminho para aceitarmos em paz cada processo que nos leva à perfeita imperfeição. Pense nisso