Tudo sob controle: A morte de Santiago Andrade e as manifestações no Brasil

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Quando as manifestações populares explodiram em Junho do ano passado, uma das coisas que mais chamavam atenção era a completa perplexidade das autoridades e da imprensa diante de um grito generalizado, sem líderes, sem pautas objetivas, sem listas de reivindicações, de milhares, milhões de brasileiros mobilizados pelas ruas de todo país.

Naquele mês escrevi que pessoalmente aquilo não me parecia estranho, pelo contrário, representava o esgotamento da paciência de quem enxergava o contraste entre os números oficiais, pujantes, eternamente eleitorais e a realidade difícil de quem vive em um país absurdamente desigual, regido por um esquema político sem nenhuma brecha para que de fato haja mudança concreta. Os protestos começaram contra o aumento das passagens de ônibus, mas logo se alastraram e viraram algo fora de controle.

Esse é o ponto.

Sem lideres, pautas, representantes com procuração para falar em nome da maioria e, diante da dimensão que os protestos tomaram, expondo o governo justamente enquanto o país promovia um evento internacional (copa das confederações), o que mais incomodava aos que eram objeto dos protestos (os políticos), além do ineditismo do movimento e sua imprevisibilidade, era a completa falta de controle.

Se no primeiro momento a imprensa se posicionou contra as manifestações, no segundo momento, rapidamente, a mudança de opiniões, de análises, de olhares, foi evidente.

Artistas, jornalistas, cidadãos em sua maioria começavam a debater sobre a necessidade urgente de respostas políticas concretas que de alguma maneira amenizasse os ânimos, que fosse uma clara resposta no sentido de que, daqui para frente, algo sério, profundo e sistêmico deveria acontecer, não só em relação ao preço das passagens de ônibus, mas ao jeito de se fazer política no Brasil. O discurso da Dilma em tom de campanha eleitoral, cheio de promessas, não convenceu, todos queriam atitudes.

Acontece que naquela massa de milhares, havia dez quebrando lixeiras, vidro de carros, arrombando lojas, colocando fogo nos ônibus. Entre milhões de vozes em busca de um país mais justo, algumas dezenas promoviam medo, confusão, feridas que aos poucos representavam algo que até então parecia difícil: a completa mudança de foco, as coberturas jornalisticas se despolitizaram, fixando-se no “quebra-quebra”. A opinião pública, como sempre, acompanhou.

A população apavorada, recuou, desmobilizou-se, acreditou que de fato os tal “black bloc” tinham alguma condição de se sobrepor ao clamor de um país, que eram em maior quantidade que o povo, que tinham alguma capacidade de perverter um grito de milhões. Triste engano.

“Apoio as manifestações, mas a violência está passando dos limites” era o discurso oficial de quem antes temia “a invasão dos palácios”, mas agora, aliviados, posavam de pacificadores diante de um país assustado, distraído, confuso, temendo algo que começou lindamente, mas aos poucos se transformava em mera “baderna”. A imprensa acompanhou.

Ontem morreu o cinegrafista Santiago Andrade.

A cobertura mundial repercute a ação de “manifestantes” cariocas, inconsequentes, violentos, covardes, rebeldes sem causa clara, sem discurso específico. Tudo isso é verdade, toda violência é condenável e digna de punição, mas tem algo a mais nessa trágica história: Legitimado pela justificável crítica ao ato, o governo começa a falar – e encontra apoio na imprensa e na população – em “controle” das manifestações, em leis, em “ordem”, em meios de formatar a única coisa que os governantes temem: a insurgência popular.

Isso fica evidente na medida que começam a aparecer sinais de ligação entre os tais “black blocs” e líderes políticos locais. Afinal, quem está por trás desse movimento nitidamente dispersivo, violento, desmobilizador, fonte de pautas críticas e generalizadas ao legitimo movimento de um povo contra seus governantes?

Quem ganha com a tal “baderna”, com os quebra quebra, com a desorganização, e, no fim das contas, com a morte do cinegrafista? Os “black blocs”? Não creio.

Se houvesse um grupo interessado em financiar “baderneiros” que alterassem radicalmente o foco das reivindicações, deslocando o espaço da cobertura política para a cobertura policial, que conseguisse mobilizar a opinião pública, não mais no sentido de mudanças, mas em apoio ao “controle” por parte do governo, sinceramente, quem seria esse grupo?

São perguntas que não vejo por ai, pelo menos publicamente, enquanto o discurso vigente é quase unânime: “Veja só o que as manifestações viraram! O governo precisa ter controle sobre isso e se posicionar de maneira firme para que tragédias como a do Rio não se repitam”.

É o aval que o governo precisa.

O mesmo que o povo americano deu a George Bush contra a mal explicada e caríssima “guerra anti terror”, que inclusive garantiu sua reeleição totalmente pautada nesse discurso. A mesma que a história nos cansa de mostrar, mas não aprendemos, sobre o poder que a criação de vilões tem para desmobilizar ideias, ideais em troca do medo, da submissão, da resignação em aceitar a proteção do carrasco, o afago de quem, com outra mão, sempre dá um jeito para virar o jogo, fazer do seu jeito e manter tudo sob controle.

Sou absolutamente contrário qualquer tipo de violência, acho tudo isso uma insanidade, mas acho importante refletirmos quem de fato ganha com ela, quem provavelmente está por trás desses anões chamados black blocs, os mesmos que, do seu modo, respondem a movimentação política iniciada em Junho de 2013 e, agora, 8 meses depois, cogitam a criação de leis que abririam brechas para categorizar manifestações populares em crime de terrorismo. Isso vai além da nossa cobertura jornalistica e nossas discussões de face book. Cabe a nós enxergarmos.