Em uma segunda de manhã

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Tem horas, mesmo que seja no meio de um dia qualquer, que seja então na segunda de manhã, no começo da semana, que faz bem lembrar que, por mais que tentemos, não temos controle absoluto sobre nada, que a vida não depende do nosso esforço, tampouco do desgaste ou sofrimento de ninguém. Isso nunca resolveu nada, pelo contrário, só distorceu, impediu que víssemos com clareza.

É bom lembrar que existem boas surpresas, reviravoltas do bem, desfechos iluminados, inesperados e que quase nunca enxergamos mais do que duas ou três possibilidades, diante de bilhões que cada acontecimento potencialmente carrega. O pior é que nos fixamos em nossa miopia quase cega e deixamos de ver o universo que se vincula a cada pequeno movimento da vida.

Nem sempre as coisas acontecem do jeito que gostaríamos, ainda bem, assim vamos abrindo espaços para o inesperado, dimensões que nos surpreendem e nos alimentam para o daqui a pouco, para o ainda não, para a esperança que chega de repente e nos renova, assim, no meio de um dia qualquer, uma segunda de manhã, quem sabe?

Acontece sem que estivéssemos contando, como um sopro de ar, uma dose de alívio, um esperado descanso, uma discreta, serena e presente alegria que puxa a cadeira, senta do lado e, sem dizer nada, sorri e nos lembra que a vida é cíclica, dialética, imprevisível, que a claridade só é reconhecida porque conhecemos a escuridão, que o mal de hoje, tão ruim, tão difícil, tão aparentemente desnecessário, poderá ser a gênese do bem que que já está perto, que sinaliza com sutileza em um dia qualquer, quem sabe em um texto que chega do nada, em uma segunda de manhã.