Flavio, como você lida com a necessidade do marketing?

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*Flavio, sempre me interesso quando você escreve sobre o sistema que a gente vive e eu acho muito difícil achar um balanço prático na questão entre viver no sistema e não deixar que ele viva em nós. Por exemplo, recentemente eu li que o sucesso de um livro depende 20% conteúdo e 80% marketing. Esse número é só uma estimativa grosseira, mas faz sentido! Você que vive no meio da comunicação sabe disso, claro! Infelizmente parece que para uma pessoa como você conseguir ajudar mais gente você tem investir mais em “vender” e em fazer parte desse sistema, não? Mas claro, você não quer ser um “vendedor”. Como você lida com isso?

—-Você tem razão sobre isso e confesso que não tenho fórmulas prontas, apenas procuro manter o equilíbrio e jamais transformar meu trabalho em obra de marketing. Sei que em certos aspectos funcionaria melhor, atrairia mais gente, venderia mais livros, mas, sinceramente, faria sentido?

Confesso certa intransigência em adequar minha mensagem a ouvidos formatados, que só entendem o que vem mastigado, palavras que fazem cócegas, não inquietam, não provocam, não desconstroem. Continuaria no rádio se fosse para ser assim. Abri mão de uma carreira sólida, em rádios grandes, no maior mercado da America Latina (SP) porque sentia que tinha algo mais a dizer, que poderia vincular minha comunicação ao que sou.

Aderir ao marketing de massa seria mexer na essência do que digo, afinal, esse é um dos alvos de minhas críticas. Obviamente, quando um capista faz a capa de um livro meu, quando penso em um título, quando faço um banner que promove um encontro, quando crio uma vinheta para o Insight, um trailler para o livro novo, claro, há “marketing” nisso também, há preocupação estética, há tentativa de facilitar o entendimento, de tornar a imagem atraente, claro que há, mas quando falo que procuro manter o equilíbrio, quero dizer que essa preocupação tem limites e o limite é até onde isso interfere no conteúdo.

Se mexer, não quero, afinal, não são apenas as palavras que carregam mensagens, é como lido com elas, como as promovo, como falo, sobretudo o que sou. Tudo está vinculado. Não vejo problemas em falar sobre os livros, expô-los, promovê-los em meios de comunicação, isso é marketing também, mas deve ficar nisso, na facilitação do acesso, não na formatação da obra.

Infelizmente, cada vez mais, é normal que autores e editoras publiquem livros que jamais irão além de frases de efeito, imagens bonitinhas, historinhas que, em última instância, alimentarão nossa cegueira, criarão dependência e correria para os volumes 2, 3, 4, que se perpetuarão enquanto gente cansada insistirá mais um pouco, mais um pouco, até deixar de acreditar.

Por que o marketing é responsável por 80% da venda de um livro? Porque nos deixamos levar, nos recusamos a ler o que nos confronte ou o que não corresponda com o tipo de formatação que estamos submetidos.

Prefiro falar com menos gente mas manter independência no que escrevo. Prefiro que meus vídeos tenham menos acesso se não puder mais questionar, mas, pelo contrário, me perpetuar no eterno “você pode”, “você consegue”, “você é um campeão”. Não enxergaria nenhum motivo para virar palestrante de auto ajuda motivacional de equipe de vendas. Para que ? Para ganhar dinheiro? Para virar ícone de massas? Para promover o que combato?

Diante disso não me resta muita alternativa. Não sou contra o marketing, mas faço uso com reflexão e moderação. Para mim, importa a mensagem e a certeza de que, os que estiverem prontos para ouvir, de alguma maneira chegarão.

Quando chega o dia mau

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Repare nos outdoors. Gente feliz, sorrindo com olhares convidativos e mensagens cativantes.

Cativantes também são os títulos de best sellers que prometem ensinar “não sei quantos passos” para a felicidade, o reconhecimento, a vida “plena”.

Alias, plenitude é a proposta : dos programas de TV, pregadores religiosos, políticos e anúncios publicitários.

Você já parou para pensar na quantidade de mensagens – ostensivas e subliminares- que somos expostos desde a hora que acordamos até o momento de dormir ?

De um jeito ou de outro gostamos disso, e, ainda que seja sem perceber, construímos nossos castelos sobre tais promessas.

Aí chega o “dia mau”. Quando o imponderado surpreende, nos abala e força os questionamentos.

Por que o avião caiu ? Por que o mundo está sendo destruído ? Por que crianças são abandonadas ? Por que aconteceu comigo ?

Diante das contínuas mensagens de “você pode”, “você merece”, “o mundo é seu”, o choque da catástrofe parece nos dizer que há algo contraditório em nossa percepção de vida.

O problema, é que gostamos de ver as coisas sob a ótica do juízo e do merecimento. Diariamente tomamos pílulas de positivismo para que, junto, venha o “compre”, “faça”,”vote”, “doe”, “venha”.

É uma permuta:

De um lado você compra, de outro eu faço você acreditar que, comprando, será feliz. Até que meu novo produto seja lançado.

Não há nada de errado em comprar ou vender, a não ser que nessa transação a moeda seja da busca ou da promessa daquilo que o dinheiro não compra.

“Mas eu comprei e agora mereço” é a sensação que ficamos diante do que nos dizem.

Só que a vida não é assim e, diante da realidade, tendemos a nos sentir lesados como consumidores e, muitas vezes, recorremos ao Procon existencial sob forma de estupefamento ou crises de depressão.

Nem tudo o que lhe parece bom é para o bem, assim como nem tudo o que tem cara de mau, mata.

O dia em que você aprender a ver a vida sem as lentes da barganha, entenderá que acontecimentos são apenas mídias. Que a morte, é apenas o fim de um ciclo entre os que vivem no corpo, que a doença é uma condição física (às vezes da alma também) e que um dia as coisas terminam.

Quem dá significado aos acontecimentos é você, isso conforme o que lhe habita o coração.

Por isso aquele que constrói seu castelo sobre propostas de felicidade a qualquer custo (literalmente), viverá em eterno conflito entre o que gostaria diante do que é.

Esses vivem sentindo-se injustiçados. Estão no contra fluxo da existência, como poderiam enxergar?

A vida não premia ou castiga. A vida ensina e a lição é absolutamente individual.

Então, caminhe em busca de percepção. Olhe e veja, escute e ouça, pense e entenda.

É assim que são as coisas, e será cada vez mais.