Uma parábola sobre nós, nossos medos, nossas culpas, nossos caminhos

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Estamos todos em procissão, caminhando por um deserto, seguindo uns aos outros enquanto vozes de comando nos orientam. Líderes seguem adiante de grupos de homens e mulheres sedentos, pacientes, e cansados.

Eles não podem desviar o olhar do tornozelo de quem está a frente, cabisbaixos, obedientes e amedrontados, afinal, dizem os líderes, quem ousar levantar a cabeça imediatamente ficará louco, a luz é muito intensa, “seus olhos jamais aguentariam tanta luminosidade. Marchem, ouçam e obedeçam. Nós sabemos o caminho”, afirmavam. Não havia razão para correr risco, afinal, os líderes sabiam o que falavam, eram sábios, bem intencionados e tudo o que faziam era guiar o povo em direção ao lago onde, pelo menos temporariamente, poderiam saciar sua sede – pensavam as pessoas.

Era assim com aquele grupo, com seus pais, avós e antepassados que vez ou outra contavam sobre algum desobediente que simplesmente enlouqueceu. Gente sem fé no que era ensinado, insubmissos, rebeldes, baderneiros que tiveram o que mereciam, que resolveram levantar a cabeça e simplesmente enlouqueceram. Esse vídeo conta um pouco sobre essa história, a nossa história, a nossa caminhada, os nossos medos, a nossa chance.

 

 

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Deus, desacredite

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Acreditar que Deus existe é um pequeno e tímido movimento da consciência. Acreditar em Deus é comprar o pacote cultural/religioso/ocidental sem discussão, sem questionar, sem enxergar.

Nesse ponto os agnósticos estão um passo a frente.
É bem mais fácil acreditar em Deus do que desacreditar. No entanto, quem está disposto a se expor às implicações de identificá-lo dentro de si mesmo? Nem sempre é tranquilo reconhecer-se como morada de Deus, parte dele, nele, desvinculando sua percepção da necessidade de olhar para fora.

Isso porque a primeira é corroborada pelo senso comum, pela nossa cultura, pela maioria que elegeu aquela figura de barba, feito a nossa imagem e desconfortável semelhança e, nele, pregou uma placa escrito “esse é deus. acredite ou vá para o inferno”. “Pega bem” acreditar em Deus. “Pega mal” desacreditar. É como se todos fossem obrigados a crer do mesmo jeito, afinal, fomos moldados culturalmente para simplesmente acreditar, sem refletir, sem discutir, sem duvidar, sem respeitar espaços, sem dar atenção aos vazios.

É bem mais fácil controlar pessoas, movê-las a viver em dogmas, segregando, separando, guerreando quando, sem argumentos, eu digo “é porque deus quer”, “é porque deus me disse”.
Interiorizá-lo é o inicio uma viagem solitária e de muitas desconstruções. É diferente de “acreditar”.

Eu posso ou não acreditar no que me dizem, mas quando a crença vira experiência você se enxerga diante de questionamentos até ontem inquestionáveis, percebe-se relativizando o que parecia absoluto, duvidando do que dizem estar fora de discussões, invertendo vertiginosamente a lógica do que antes acreditava, deslocando o olhar das pirotecnias que insistem em dizer “Ele está lá”, diante da inevitável constatação de que “Ele vive aqui”. Isso produz uma profunda e radical inversão de percepção de tudo, caotizando um mundo até então construído a base de crenças, não de consciência.

É colocar-se no contra fluxo, desprender-se da maioria, desvinculando-se de culturas, desfazendo-se de tradições, livrando-se de sistematizações que se esforçam para encaixotar o que não cabe em cartilhas, para apreender o que não lhes pertence, em ser voz do que não cabe em uma única voz, de ser donos do que está em mim, em você, em cada um de nós. Acredite: Isso nunca é fácil. Dói na grande maioria das vezes.

É sentir-se herege por um tempo, temer a própria loucura, achar que se contaminou, desviou, desagregou enquanto seus pares se apressam em julgar-lhe, em dizer ” sei o que está por trás do que você diz” e se distanciam, se afastam, afinal, você se tornou perigoso. Sim, você se torna uma real e potente ameaça! Crucifica ! – gritariam se pudessem.

É muitas vezes ir contra as tradições da família, dos amigos, do cônjuge, dos grupos, afinal, estamos falando de um caminho de descobertas, de quebra de paradigmas, de profunda e radical mudança de percepção, com todas as implicações que isso acarreta.

Acreditar em Deus é uma coisa, desvincula-lo do símbolo, dos dogmas, do nome “d-e-u-s”, das fórmulas, das pré concepções, dos pré conceitos, dos limites, das descrições, dos códigos, das caixas, das propriedades e simplesmente enxergá-lo em si mesmo, dissolvendo-se nele, produtor de mistério, essência do ser, fonte de sabedoria e pacificação é outra completamente diferente, especialmente porque, diferente dos sistemas, enxergar Deus na gente nos torna livres, independentes e não sequestráveis por ameaças. Quem não se inquieta diante de um ser livre? Quem?

Portanto desacreditar de “Deus”, esse dos códigos, torna-se necessário. Afinal, o que fazer quando percebeu que os passos, a voz, os movimentos sutis, mas constantes, suaves, eloquentes de Deus não vinham de lá, não estava fora, não se vinculava ao que aprendeu, mas vinha de dentro de você? Como voltar atrás depois que reconheceu-se parte de Deus, não Deus fora, não Deus lá, não Deus deles, não Deus nosso, mas Deus meu, em mim, aqui?

Nossas mentes podem fazer várias viagens, há muitas e muitas reflexões a serem feitas, processos a serem desenvolvidos, caminhos inimagináveis a serem trilhados, no entanto, acredito ser essa percepção o ponto de partida, a linha de chegada, o começo, o meio e o fim de todo entendimento, de tudo o que realmente faz diferença.