O que você faz com seu tempo?

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Todos os nossos valores, importâncias, medos, anseios, vazios e preenchimentos encontram-se na linha do tempo.

Sabe organizar as experiências através do tempo ajuda a extrair de cada uma delas suas funcionalidades adequadas para os diferentes contextos humanos, mas, emprestar valores e significados ao que nos acontece, é algo que transcende essa percepção imediata.

É só quando aprendemos que aquilo que chamamos de passado, presente e futuro são apenas mídias, que estão interligados e no fim tornam-se uma coisa só, quando vinculamos o dia chamado hoje – único que existe – como a experiência humana mais próxima da eternidade é que aprendemos a enxergar a vida como uma experiência única, onde tudo fala, tudo se conecta, tudo faz sentido.

Enxergar mais

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Acredito que um dos maiores desafios em nosso desenvolvimento humano é aprendermos a expandir nossas referências, abrindo mão de medir por meus limites e simplesmente prestar atenção em como os acontecimentos se conectam, as nuvens se dissolvem, as dores são temporárias, em como experimentamos sempre, não necessariamente o que achamos justo, mas absolutamente o que precisamos para que sejamos melhores, mais humanos, mais sensíveis, mais profundos.

Não sabemos o caminho porque não vemos com clareza. Porque só olhamos para o próprio umbigo.

Não enxergamos o que somos de fato, quanto mais o outro, quanto mais os encaminhamentos, as harmonias e desarmonias que se desenvolvem enquanto ando. Só vejo em parte, só até o horizonte, só até os obstáculos, apenas sombras, miragens projetadas por um ser incompleto, ruídos da mente, desvios do coração.

Quem sabe o que é bom e o que é mau? Quem sabe onde esse ou aquele caminho terminará? Quem pode prever as conexões, hora “boas”, hora “más”, que sempre acabam desembocando em renovação, em experiência, em desconstruções, em rupturas, em crescimento?

Pare de olhar em volta e preste mais atenção em seu caminho.

Deixe de se sentir afetado, injustiçado ou recompensado pelo que quer que seja, não barganhe com isso, apenas perceba, observe, concentre-se em onde tem andado, foque em seu próprio caminho, desenvolva a capacidade de conectar acontecimentos, reconheça como tudo foi importante para que hoje você seja quem é, ainda que esteja em processo de transformação, crescimento, amadurecimento.

É isso que devemos priorizar, é para dentro que precisamos olhar.

Andar consciente de que aprender a amar é a finalidade de todas as experiências me expande o horizonte, redimensiona meus limites e me ajuda a perceber no simples, no cotidiano, no que quase ninguém presta atenção, valores, verdadeiros tesouros, razões para genuinamente me alegrar, grato por entender que a verdadeira justiça não se desenvolve sobre minhas projeções relacionadas ao que é ou deveria ser, mas, sobretudo, na percepção de que posso trilhar meu caminho, contraditório muitas vezes, dolorido outras tantas, mas sempre pleno da certeza de que tudo o que espero, projeto ou almejo lá fora, antes de tudo, deve ser correspondido, saciado e desenvolvido aqui dentro, onde de fato devo olhar, onde todas as coisas realmente acontecem.

Conversa sobre lucrar com a espiritualidade

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Ontem troquei um e-mail com um amigo muito querido sobre nossa tendência em transformarmos o que é de todos em algo próprio, em projetar lucro sobre uma mensagem e se tornar administrador do que não lhe pertence. A mensagem dele começava assim: “Quando iniciei nesta caminhada , me propus a considerar como regra o proposito de não participar em eventos e cursos, curas holísticas etc, onde claramente estivesse evidenciado a finalidade de comercio com a espiritualidade.
Você tem minha admiração por fazer um trabalho totalmente desinteressado do financeiro…” Abaixo minha resposta:

Sei que todos sofremos de uma sutil, intensa, intrínseca tendência a nos desviarmos para o conforto, para o mais fácil, acreditarmos que, sim, somos especiais e “merecedores” de um destaque que nos garanta, ainda que sutilmente, pervertermos uma mensagem que, sem dúvidas, é maior do que eu e você, ainda que sejamos parte dela, mesmo que ela esteja em nós.

Somos homens e mulheres que convivem com suas dicotomias, suas ambiguidades e, por isso mesmo, jamais podem perder de vista o privilégio que é ser um mensageiro. Não somos homens de negócio, do show business, palestrantes motivacionais, animadores de gente desanimada, promotores de técnicas de venda, mas, por incrível que pareça , somos a mensagem também. Não é o que falo, mas, sobretudo, o que sou.

Essa mensagem fala sobre o privilégio de existir, a possibilidade de perceber, a necessidade de aquietar-se, de enxergar, de despertar enquanto o mundo inteiro diz outra coisa, fala que Deus mora dentro, na gente, em mim, que não precisamos de técnicas, de religiões, de intermediários, de templos, de nada.

Me contradizo sempre que uso o poder do mensageiro em beneficio próprio, terei de fazer concessões, abrandarei minha mensagem, direi apenas o que as pessoas querem ouvir, adequarei, serei escravo do marketing, pensarei em público alvo, desenvolverei estratégias de alcance, de abrangência, me preocuparei com minha aparência, mudarei meu nome, criarei slogans, direi que inventei alguma coisa, me inspirarei em “cases” de sucesso, da Índia, da China, do Brasil, de Jerusalém, dos EUA, de qualquer lugar, terei cara de santo, de mestre, de iluminado, construirei um templo, um império e morrerei sem ter aproveitado a oportunidade de ser a mensagem, de vivê-la, de experimentá-la como realidade em mim, no meu dia a dia, na minha experiência de vida, nas minhas dificuldades, na minha humanidade. Deixarei de ser humano e me transformarei em outra coisa, plástica, falsificadora do que é, envaidecido, acreditando que a luz que reflete em mim é própria e independente do todo, de todos.

É fácil acreditar nas mensagens que chegam aos montes de gente dizendo que sou especial, que sou isso ou aquilo, que estou acima do que sei que sou. Sei quem sou, reconheço minha ambiguidade e tenho consciência que é justamente minha humanidade que me mantém sensível, mas é fácil, ainda que por meio segundo, pensar “sou iluminado” sou especial, eles tem razão. Seria o principio do fim e o caminho que, aos poucos, faz o cara achar normal cobrar 3.000 dólares para se encontrar com algumas pessoas (*caso citado no e-mail do meu amigo). Não é isso que eu quero. Não é assim que sou.

Por isso, amigo, obrigado por me lembrar, obrigado por escrever, obrigado por estar ai. Faz muito bem lembrar a alma quem somos, olharmos para nossa natureza e, sempre, todos os dias, ainda que cansados, reconhecermos que somos iguais, que essa experiência é de todos, que é fácil perdermos o foco, que é preciso andarmos no chão.