Hoje: o primeiro dia

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O passado me trouxe até aqui. Foi nele, enquanto as peças se encaixavam e eu não entendia, enquanto interpretava os acontecimentos conforme minha forma, meus limites, minha dificuldade em ver o todo, distanciar-me, perceber que não há nada que não se conecte, que não desemboque em oportunidades, enquanto insistia em achar culpados, argumentos que validassem minha autovitimização, no escuro, desviando de monstros imaginários, de rugidos que minha própria mente criava, foi nessa dimensão, que chamo passado, aonde estive sem ver, que cheguei no dia de hoje.

Naquele tempo que não é, estação de ilusões combinadas com meus próprios devaneios, caminhava em labirintos, placas enganosas que me enchiam de momentânea esperança anunciando “a saída”, “a entrada”, “siga aqui”, “vire ali”, mudavam os cenários, mas, depois, a mesma coisa, as mesmas curvas, os mesmos tombos, perdido no labirinto chamado passado.

O futuro era uma esperança. Quando a noite virava trevas, quando a chuva se prolongava e não havia sinais de sol, quando a vida desaparecia, a expectativa de um novo tempo, lá longe, lá na frente, lá… anunciava vagamente que, sim, um dia, não sei quando, nem onde, nem como, tudo se encaixaria, haveria explicações, finalmente descanso.

Mas o futuro se recusava chegar. Utopia, engano, ilusão de um tempo que diante do menor esboço de existência era capturado e massacrado pelo passado que se estendia resignadamente, prolongando-se, anulando toda e qualquer esperança de que futuro viria me salvar. Lutei o quanto pude, esperei, resisti, sonhei com o novo tempo até me cansar, deixar de esperar, desisti.

Na desistência o silêncio, o cessar da multidão em minha mente, sem procura, sem alardes, sem impulsos que me levavam para todos os lugares, inquieto, buscando ali, além, lá, fora, neles, nele, naquilo que se auto proclamava solução, nos discursos e sistemas, nas técnicas e caminhos que não eram meus, não estava em mim, nem eu lá, nem em nenhum lugar, somente silêncio, vazio, quietude que, inesperadamente trouxe a paz.

Paz que não veio como promessa, sem slogans ou conceitos, só paz, só aceitação, só percepção que os ruídos diminuíram, não há mais projeções para o futuro nem contemplação do passado, estranho, não há mais tempo, não foi mais ontem, nem será amanhã, não é, nunca foi, não vejo mais nada porque acordei e estava no hoje. Estou.

O choro deixou de ser, a ilusão, desiludiu-se, a esperança concentrou-se e mudou de nome pois já não espera, é. Não fiz nada, não fui a lugar algum, nada, nem lá, nem ali, percebi.

Percebi que hoje é ano novo e o novo se renova em mim, aqui, agora, hoje, o único dia que existe, o momento aonde vivo, o tempo que sou. Hoje é ano novo porque o novo sou eu, sempre, eternamente novo, experimentando todos os dias meu primeiro e último dia de vida, só isso que existe, todo o resto é ilusão, devaneio de uma mente condicionada, presa ao que não é, esperando a miragem, sequestrada por tempos que insistem em sobrepor-se ao dia chamado hoje, o momento alfa, o estágio omega, o dia de todas as minhas esperanças.

Hoje é o primeiro dia do ano, da existência, da vida, do cosmos, de tudo, é só hoje que tenho vida e hoje decido me fixar no que é, ainda que nada seja fixo, ainda que tudo se transforme, no entanto, consciente de que agora, nesse instante, hoje, tenho a maior oportunidade da vida: acordar, perceber, existir na dimensão que sou, onde tudo acontece, onde tudo começa e, jamais, terminará. Hoje, sempre, para sempre.

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