Uma história de fim de ano

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Estamos passando as festas de fim de ano na casa da minha sogra em Pelotas/RS. Viemos eu, a Lu e o Flavinho, além dos outros filhos, genro e nora. A casa é grande, tem muito espaço para todos, o pomar, a piscina, os balanços construídos para a única criança da família, meu filho, que já está quase deixando de ser criança.

Todos felizes, todos juntos a não ser por um detalhe: desde o dia 24 que a água sumiu, com exceção de duas torneiras independentes no fundo da casa, o que significa banhos de canequinhas, descargas via balde d´água, dificuldades que nós, habitantes de grandes cidades, consumidores de água encanada, estranhamos bastante. Para ajudar, o calor por aqui tem sido na faixa dos 35/40 graus, com sensação térmica ainda maior diante do clima úmido da região e, como se não bastasse, constantes e prolongadas quedas de energia, inviabilizando o uso de ar condicionado ou ventiladores.

Hoje, ao acordar, encontrei meu cunhado e sua esposa na sala, todos emburrados, suados, lamentando a dificuldade para um simples banho. Sentei com eles e comentei sobre algo curioso, se pensarmos na grande parte dos que viveram na Terra, incluindo reis, príncipes e gente muito rica, a maioria viveu de maneira parecida com a que estamos vivendo aqui. Não havia água encanada, não havia luz, nem internet, nem celular. Observei como é interessante notar o nível de nossa dependência, quanto a falta do conforto nos afeta, nos diminui, nos fecha para todas as outras coisas boas que permanecem exatamente no mesmo lugar.

Não estou dizendo que tudo isso é bobeira, que não faz falta, faz sim ! Mas quem sabe poderíamos aproveitar para, ao invés de reclamar, refletir, valorizar o que temos em nossas casas em Porto Alegre, o conforto que faz parte do dia a dia e sequer percebemos. Como é bom poder ter banho, luz, água encanada, descarga! Podemos viver sem o luxo, mas passamos a vida inteira atrás do supérfluo até perdermos a noção do essencial.

Propus que desfrutássemos o fato de estarmos juntos, que a dificuldade em encher baldes e esquentar canecas de água no fogão valorize o banho, que seja feito em gratidão, com alegria, com significado.
Aproveitei para refletir sobre o fato de nunca sabermos quando estaremos juntos de novo, se é a última vez, meu sogro, por exemplo, apesar de forte e saudável, já está com 83 anos, enfim, tudo pode acontecer.

Minha cunhada sorriu, meu cunhado mudou a expressão, ficaram felizes, parece que perceberam que não se trata apenas da falta d´água, mas de uma oportunidade !

No fim da manhã minha sogra apareceu com uma bomba d´água que resolverá o problema em parte. Pelo menos alguns banheiros voltarão a ser abastecidos pela caixa d´água, de qualquer forma, já aproveitei um dos banheiros, enchi o balde, esquentei a água e estou novinho em folha e aproveitando para compartilhar contigo essa experiência, do quanto nos tornamos reféns, em como nosso sentimento de bem estar é algo tão frágil, tão dependente de confortos externos, do quanto estamos dispostos a, em situações como essa, superarmos o desconforto e enxergarmos o que realmente faz diferença.

Ter conforto é bom, seria maravilhoso se a maioria da população tivesse acesso ao mínimo, se todos pudessem contar com o essencial. Não proponho que ninguém se acomode e viva sem estrutura, não é isso, mas, sinceramente, essa, que parece ser uma das minhas últimas lições do ano, me lembrou o que realmente importa, as relações, as pessoas, a oportunidade de, juntos, superarmos dificuldades e sairmos delas melhores, mais experientes, mais sábios. Estamos tentando conquistar o mundo sem lembrar que ,muitas vezes, uma simples canequinha é tudo o que realmente precisamos.