Quando vejo

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Quando vejo como é, perco a pretensão de ser portador de qualquer verdade, apenas porque agora eu vivo nela, naquela verdade que não cabe em palavras, que não é dos cristãos, nem dos judeus, muçulmanos, budistas, taoistas ou ateus. Nem dos cientistas, nem dos filósofos, nem dos mestres. Ela não é minha nem sua.
A verdade que supera meus códigos e me salva da loucura de pensar que “agora eu sei”. Quanto mais aprendo, menos sei, menos arrogante, menos ansioso e tudo por uma única razão: aprender implica em assumir que não sabe, em esvaziar-se e, humildemente, entregar-se ao mistério e a perplexidade de existir.

Os significados de cada mundo

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Nenhum pássaro jamais saberá cantar, se a música não existir em mim.
Nenhum por do sol, nem a voz da criança, a chuva, o abraço, a presença, nada carregará nenhum tipo de beleza se, em minha interioridade, predominar a escuridão.

Não haverá luz que ilumine o caminho, esperança em noites difíceis, serenidade para escolhas de paz, calma para enxergar com isenção, sabedoria para discernir os dias, significado para projetar nos acontecimentos, sem que eu perceba que é dentro, em mim, onde moram todas as coisas.

As montanhas serão apenas acúmulos de terra, ou pedra e nada mais. Os oceanos, nada além de muita água e as flores, sem beleza, sem perfume, sem diversidade, não passarão de caprichos da natureza, se, antes, em mim, não houver um extenso jardim, com montanhas formadas pelos aclives e declives da existência, oceanos que me refrescam, me arejam, me espantam com seus estrondos que somente eu posso ouvir.

Amor será sinônimo de fraqueza, de espírito pobre, amedrontado e servil. Jamais passará de título de música popular, inspiração de algum poeta alienado, ou quem sabe gancho de novela, sem sentido, sem densidade, sem nenhuma utilidade, se minha alma estiver seca, se meu medo servir de bloqueio e continuar me impedindo de saltar, de correr riscos e assumir as implicações de responder as demandas da vida em amor. Amor será apenas uma palavra açucarada enquanto estiver fora de mim, enquanto não estiver claro que só posso experimentá-lo quando de fato eu me tornar amor.

Deus? O que será Deus além do chefe da religião, do “cara lá de cima”, fora, desconectado, cruel, mau, manipulador que se diverte com o sofrimento alheio, alienado enquanto ignora a pobreza, a fome, o abandono de seus filhos? Enquanto nos alimentarmos de nossas teologias, tentarmos encaixotar o que não cabe em nenhum lugar, a não ser no universo que somos nós.

Quem pode descrevê-lo? Quem pode anunciar-se como representante divino, portador de alguma mensagem, dono da “palavra de Deus”, sem que se esvazie de si mesmo, que entregue-se ao mistério, que mergulhe na presença e, perplexo, descubra Deus na gente, aqui, dentro, em mim e, sem condições de encará-lo, renda-se ao Eu Sou em profunda gratidão, humilde, reverente, em estado de quietude interior?

Tudo o que você enxerga no mundo, as cores que tingem sua realidade, são apenas reflexos. Nenhuma verdade, nenhum significado, nenhum valor, nenhuma esperança. Sem sentido, sem absolutamente nenhuma conexão com nada, caos, desordem, bagunça, loucura, assim será seu mundo, sempre, até que você mude a perspectiva e, finalmente entenda, que tudo mora dentro, que nada lá fora existe desconectado do que você tem se tornado e, ainda que a vida continue difícil, interpretá-la a partir da própria interioridade abre uma outra dimensão, iluminada pela consciência de que, no fim das contas, todas as experiências, todas elas, tem por finalidade nos fazer aprender a amar.