Uma carta de gratidão

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Hoje é sábado 20h23 e estou no quarto de um hotel em Belo Horizonte, depois de um fim de semana de encontros aqui em Minas Gerais e no Rio de Janeiro.

Estou grato, pensando no privilégio de ouvir histórias, ler nos olhos, nos abraços, nas expressões tão genuínas, tão voluntárias, tão sinceras de gente que chega para contar o que houve depois que abriu uma das minhas garrafinhas, aquelas que jogo no oceano da internet com mensagens e, ás vezes, chegam até alguém, modificam caminhos, ajudam a reposicionar gente cansada de tanto tentar, gente que começava a perder esperança e agora recomeça, que descansa porque começou a entender que tudo sempre esteve onde está, que a vida é cheia de presentes, que basta aquietar e perceber.

Em cada história, em cada experiência compartilhada, a profunda certeza de que tem valido a pena, não porque faço nada de extraordinário ou inédito, mas ao contrário, só divido um pouco da minha própria experiencia, das minhas questões, do meu caminho que se identifica com o seu, de alguma percepção que tive e se encaixa com a sua e, assim, compartilhando, criando identificação, promovendo vínculos, experimentamos o privilégio de crescermos juntos.

Aqui entre nós, viajar tanto promovendo encontros é sensacional, mas também cria algumas dificuldades pessoais que, confesso, já me fizeram questionar se continuarei nesse ritmo em 2014. Apesar de não ter a resposta com clareza, os últimos dois dias me inundaram de gratidão, por fazer parte de algo tão especial, por tomar consciência do significados de publicar textos, gravar vídeos, escrever livros, viajar para me encontrar com as pessoas, gente de crenças, idades, históricos, profissões, religiões, percepções diferentes, mas que se identificam no que realmente importa: a vontade de enxergar mais longe, de resgatar a essência que parecia dissolvida, de humanizar-se, crescendo como promotores de amor, vagalumezinhos, sem grandes pretensões, sem metas utópicas, apenas com simplicidade e verdade.

Fecho esse fim de semana de encontros, grato, quieto, reflexivo, feliz, contemplando o significado disso tudo, sabendo que sou apenas uma pecinha, apenas um pequeno pino de algo muito, mas muito, inominavelmente maior do que eu e, ainda assim, me dá o privilégio de compartilhar e, no fim das contas, crescer junto com tanta gente boa. Obrigado a quem esteve, a quem não pode, a quem não vai, a quem irá, e quem nunca saberei que está ai, que não tenho ideia de quem é, mas já faz parte do meu caminho que, nos últimos dias, se tornou um pouquinho mais iluminado. Grande beijo, obrigado por tudo, fique bem !

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A dor purifica?

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Quando crianças, enquanto seres tomados por profundo senso de liberdade, quando não há noção de pecado, errado, vergonha, ou nenhum tipo de contingenciamento seja de qual natureza for, livres, conectados, sensíveis, espontâneos, não percebemos que a idade tende a deixar o brilho do olhar mais opaco, especialmente na proporção que a escola, a família, as leis, a mídia, a cultura, a universidade, a sociedade, o mercado de trabalho, enfim, camadas e camadas de regras e referências que se acumulam sobre um espírito essencialmente livre, impondo verdades, criando absolutos, domesticando com o tempo, transformando liberdade em loucura, formatando, padronizando, massificando, argumentando para que aceitemos o inaceitável e nos acostumemos ao sofrimento e a dor.

É quando nascem absolutos do tipo “é bom sofrer”, “a dor purifica”, ou “é nobre sofrer”. Será? É quando o sorriso escasseia, a felicidade é relativizada e trocada pelas “alegrias” do consumo, quando crianças se tornam adultos com raros frames de memória de um tempo distante, inocente, onde, sem saber ou pensar, eram felizes.

Acostumar-se com o sofrimento é um tipo de domesticação. Aceitar que a vida não pode acontecer na dimensão da felicidade – ainda que esta seja pontuada por momentos de tristeza, mas que ainda assim não anulam o estágio da paz – é sequestro, é prisão, é encarceramento do espírito humano, essencialmente livre, essencialmente feliz.