Meu pai sempre me machucou. Não consigo prosperar, minha relação com dinheiro é adoecida. O que faço? – Pergunta leitora

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Pergunta leitora: Flávio,
Escrevo para agradecer a sua influência em minha vida. Nesse ano houve uma época em que eu estava bem triste por n motivos e encontrei seus vídeos em busca de me reconectar com pensamentos positivos e energias boas, sabia que minha mente estava como que presa em um ciclo de pensamentos não saudáveis e sabia que podia mudar isso. O seus vídeos nessa época foram de grande ajuda em minhas reflexões e meu caminho de superação daquele momento. Grata!
Hoje vendo alguns dos seus vídeos nos quais você dizia que tudo que precisamos está dentro de nós me surgiu uma reflexão sobre dinheiro. Eu nunca consegui até agora me estabilizar em um emprego, por causa disso em 2011 deixei a iniciativa privada e iniciei um mestrado. Ainda tenho paixão pela vida acadêmica, concluí minha dissertação com o conceito dez, mas percebi que pelo menos no começo eu não poderia me sustentar dando aulas, vou me casar ano que vem e é necessário que tenha uma renda maior. Então estudei para alguns concursos públicos e passei dentro do número de vagas para um cargo na Secretaria da Educação com um salário baixo, mas que me permitirá pagar as contas. Tô aguardando a nomeação.
Uma das minhas maiores buscas é equilibrar a minha relação desequilibrada com o dinheiro, superar todos os meus fracassos na iniciativa privada (fui demitida diversas vezes) e conseguir uma maneira de me sustentar e não depender financeiramente do meu pai que é extremamente violento, tenho 31 anos e estou morando com ele, muitas vezes me pergunto porque estou aqui já que sofro violência moral constantemente (no passado também era física, só não acontece mais porque ele está velho), talvez tenha sido incapaz ou fraca para achar outro caminho ou talvez ainda esteja buscando desesperadamente a aprovação que ele nunca me deu. Me sinto ridícula por isso. E por não ter pra onde ir. Me sinto encurralada. Ele ofereceu ajuda financeira durante o tempo em que eu buscava outro caminho (após 2011), eu quis aceitar, fiquei com medo do desrespeito durante esse período mas ele prometeu que nada aconteceria. Eu quis acreditar, mas no fundo eu deveria saber o que nossa relação se tornaria, as ameaças constantes de cessar a ajuda, as palavras de baixo calão, os berros, as humilhações. Me sinto responsável por alimentar a loucura dele, no fundo acho que ele me ofereceu ajuda para alimentar a agressividade dele (que também atingia minha avó e outras mulheres com quem ele relacionou, além da minha mãe que saiu saiu literalmente machucada dessa relação).
As vezes também acho que nunca consegui ter sucesso na carreira porque inconscientemente eu quero ficar ligada a ele, talvez por esperança de receber amor, sei lá… por algum motivo masoquista bizarro que está vivendo obscuramente no meu inconsciente. Porque fora desse lugar eu sonho em ser independente, em sair daqui, sonho em cortar relações com ele pra sempre. Fantasio a morte dele inclusive, por mais perverso que isso pareça. Eu e meu noivo vamos morar em um apartamento que é do meu pai, ele nos ajudou a reformar o apartamento e nós vimos a oferta como uma oportunidade de começarmos a vida a dois, mas é só mais uma prisão. Eu sei. Ele sempre diz que me paga muito bem para me submeter ao que ele quer. Eu me sinto uma prostituta. Porque eu poderia ter feito algo. Claro que tinham alternativas! Mas eu escolhi permanecer.
E olha que interessante esse outro aspecto da minha relação com o dinheiro, eu andei observando meu comportamento percebendo que tenho vergonha de falar que comprei coisas caras ou de falar das minhas (quando há) conquistas financeiras. Eu acho que acho bonito ser pobre. Acho que aproxima as pessoas. Andei me observando e em meu discurso eu vivo repetindo que tô sem dinheiro, que a situação não ta boa… e parece que tenho orgulho disso!!!! Sendo que eu quero ter o dinheiro que acho que mereço pelos meus estudos e inteligência. Essa contradição anda tirando o meu sono. Mas como “ando sem grana” não estou fazendo terapia ultimamente… gostaria muito te receber um atendimento psicológico de qualidade, já fiz muita terapia nessa vida!
Estou escrevendo porque estou presa aqui, nessa situação, imagino que a cerca é baixa e existe um mundo melhor lá fora. Mas ainda assim estou presa aqui. Como sair?

Resposta Flavio: Seu diagnóstico está no caminho certo: a busca pelo reconhecimento, a necessidade de aprovação, de proteção, a dependência psicológica, o sequestro emocional. Gente como seu pai costuma gerar esse sentimento, especialmente em filhos e esposas que naturalmente vão se tornando fragilizados, inseguros, acreditando no fundo que mau trato é cuidado, que talvez mereça, que é tratado conforme sua própria inferioridade. Pensar assim cria algemas na alma, poderosas, complexas, profundas, alterando radicalmente sua relação, não só com a pessoa em si, mas com o trabalho, as hierarquias, os relacionamentos, o dinheiro, e, sobretudo, consigo mesma. Aliás, é ai que se esconde a chave da prisão.
Ninguém sai de uma situação dessas sem sequelas, sem estragos na auto imagem, sem distorções sobre quem de fato é. Em determinado momento o medo, a culpa, a raiva, tudo o que foi semeado por tanto tempo enraíza de forma tão profunda e sufocante que a vida perde os horizontes, as perspectivas de liberdade, afinal, sequestrados pelo sentimento destrutivo, tudo o que fazemos passa a ser apenas uma tentativa de resposta ao que vive tão intensamente dentro da gente. Tudo. Você não consegue pensar na possibilidade de viver feliz com seu marido, você pensa em não viver como viveu com seu pai, é uma resposta. Você não pensa em prosperar no trabalho e ser de fato útil no que faz, servir, crescer, amadurecer, no fundo, pensa em conquistar independência financeira, provar que pode, dar uma resposta ao seu pai. E assim, de um jeito ou de outro, nas metas ou relacionamentos, a figura do seu pai se projeta como um fantasma, um manipulador, um déspota onipresente que afaga com uma mão e machuca com a outra, fortalecendo a “síndrome de Estocolmo” onde o sequestrado cria uma relação de dependência com o sequestrador.
Mas como livrar-se disso? Primeiro jogando luz sobre o cenário, entendendo o processo. Tornando-se consciente que ninguém pode aprisionar a alma de alguém, a não ser que esse permita. Seu pai não tem nenhum poder sobre você a não ser que você dê. Dependência financeira, a casa que ele deu, o dinheiro, a ajuda, nada disso existiria se ele não estivesse aqui. Nesse caso, você teria que agir não? Portanto, de um jeito ou de outro é você quem alimenta esse poder nele e ele sabe disso. Por isso oferece ajuda, por isso dá o apartamento, por isso cobra com juros mais altos do que os bancos. Entender essa dinâmica com clareza é o primeiro passo para enxergar, para colocar cada um no seu papel e entender como uma relação adoecida só se perpetua quando os dois estão doentes, quando os dois permitem, quando os papéis de cada um na retroalimentação do processo já está tão estabelecida, tão arraigada, tão inquestionavelmente posta, que toda a vida passa a girar em torno disso.
Uma vez que você entenda, perdoe. Perdoe seu pai e perdoe a si mesma. No fundo se sente culpada, no fundo acha que tem alguma dívida, aceita a dependência, o chicote, o achatamento porque se sente culpada, menor, inferiorizada. Sabe que é inteligente, sabe que é capaz, sabe que tem muitos méritos, mas não estou falando da superfície, me refiro a interioridade, ao inconsciente, a autopercepção maculada, machucada, arranhada.
Sua dificuldade em lidar com o dinheiro, em dizer que comprou algo legal, sua autossabotagem nos empregos onde sempre é demitida revelam um pouco mais dessa condição de se perceber como não merecedora, e então você se pune. Perdoe-se, isso é absolutamente fundamental. Você não é quem seu pai diz ser, você não é aquela menininha assustada, dependente, medrosa, você cresceu e, se cometeu erros, está na hora de perdoar-se de verdade, de enxergar-se livre, de iluminar seus porões escuros da alma e entregar-se a verdade, ao amor, a vida. Perdoe-se de verdade. Pare de se sabotar, mude o eixo de seu caminho e perdoe-se sabendo que seu maior acusador não é seu pai, mas você mesma.
Uma vez perdoada,perdoe seu pai. Não há razão para alimentar o que aconteceu, esqueça. Ele nunca agiu objetivamente contra ninguém , mas, sobretudo, passou a pobre vida inteira tentando calar seus fantasmas, projetando nos outros, se esforçando para calar a profunda insegurança na proporção em que precisava se sentir dominando, controlando, tudo fruto de uma profunda insegurança, uma profunda dor. Seu pai não tem mais poder sobre você e, se lhe causou sequelas e dores, jogue luz sobre elas, perceba e veja como elas vão se diluindo diante da consciência de quem agora se reconhece e simplesmente enxerga. Nenhuma escuridão resiste a luz. Ilumine-se e perdoe seu pai. Perdoe de todo o coração, de toda alma e de todo entendimento. Perdoe de verdade.
Depois, siga seu caminho. Se realmente aceitar o apartamento que ele oferece, que seja sem culpas, sem altos preços a pagar, sem humilhações. Você é filha, tem direito, ele oferece, é escolha dele, agradeça, ponto final. Se passar disso, sugiro não aceitar. Pague o preço desse distanciamento, pelo menos por enquanto seria bom um tempo. Viva sua vida, você é inteligente, tem uma profissão, vá fundo e, mesmo que a liberdade tenha um preço, perca o medo e conquiste-a ! Você está chorando em um quarto escuro, amedrontada, embaixo da mesa, seu pai no mesmo ambiente, gritando, ameaçando, mas, acredite, tem uma porta aberta nesse ambiente. Levante, saia, exponha-se ao sol, ao vento, viva sua vida livre das ameaças, livre da culpa, livre do medo e carregada de perdão. É o perdão que iluminará seu caminho, projetará luz e quebrará as algemas,.
Seu pai fez e continua fazendo as escolhas dele, você as suas, portanto, estar livre não é uma escolha de mais ninguém a não ser de você mesma.
Perdoe, cure-se, siga seu caminho. Você quer? Estou contigo nessa.

5 comentários sobre “Meu pai sempre me machucou. Não consigo prosperar, minha relação com dinheiro é adoecida. O que faço? – Pergunta leitora

  1. somos igual transmissão de radio e TV, a gente só e abençoa se os pais abençoa liberar benção um dever dos pais e deixar DEUS trabalhar no comando,triste este história mais infelizmente acontece nos lares ….

  2. Clarice Sirena

    Passei por isso com a minha mãe…fui refém dela por muitos anos. Saí da dependência dela para entrar na dependência de um casamento que não me faz feliz. Tenho uma filha linda de 3 anos, mas sinto como se meu marido e eu pertencêssemos a mundos diferentes. A única coisa que ainda nos une é ela. Minha mãe morreu no fim do ano passado e, desde então, passei a me sentir mais confiante, mesmo assim, nada do que eu faço da certo. Também já fui demitida várias vezes. Até que, em 2008, resolvi abrir uma empresa de organização de eventos. Até hoje a empresa não deu certo. Faço um evento a cada três meses. Empresas que abriram depois de mim, fazem pelo menos três por mês. Comecei a trabalhar como cat siter há 3 meses para ganhar uma renda a mais. Até agora não consegui atender a nenhum cliente. Uma pessoa da mesma cidade começou a trabalhar dois meses depois e já atendeu vários…enfim…parece que nada da certo, parece que tudo o que eu faço dá errado…minha empresa não prospera, não ganho dinheiro nem para pagar as contas e tudo o que eu tento fazer dá errado. Enfim, frustração é a palavra que define minha vida pessoal, profissional, financeira e afetiva. A única coisa boa que eu ainda tenho é a minha filha.

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