A importância de ser religioso – troca de e-mails com leitor

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Esta é uma troca relativamente antiga de e-mails com um leitor aqui do blog. Como essas perguntas são recorrentes, republico na esperança de que seja útil a muita gente, especialmente à você.

De: Marcos R Martinez
Assunto: Res: Re: Res: Re: [Blog do Flavio Siqueira] Moderar: “Videos para reflexão”
Para: “Flavio Siqueira”
Data: Sábado, 3 de Abril de 2010, 16:35

Flavio,
Bom Dia!
Obrigado pelo retorno,
Realmente tenho aprendido bastante com a vida nesses últimos tempos, e não foi por acaso que lhe encontrei, aliás eu não acredito em acaso, mais a sua sabedoria vem de encontro com os aguilhões da espiritualidade em que minha mente continua a recalcitrar.
 
Sabe quando um tema, ou um pensamento parece lhe perseguir, e você se encontra em situações inusitadas com pessoas e fatos completamente diferentes mais querendo dizer a mesma coisa? pois é, tenho vivido isso com amigos e pessoas das mais diversas crenças, são Pastores evangélicos, são católicos fervorosos, pessoas simples sem religião mais que acreditam em Deus, e acredite até mesmo um Filósofo que não acredita nem num Deus único ..é Politeísta, e até muitos sociólogos que não acreditam em nenhuma forma de Divindade, ateus de carteirinha, são todos amigos! E você está sendo o coroamento desses ensinamentos que a vida está querendo me passar, é claro que todas essas pessoa tem o seu valor, mais não é isso que me espanta, o fato é que tenho percebido que o que determina o valor de uma pessoa, realmente não é a religião,doutrina ou filosofia de vida a que pertencem, e nem mesmo o seu conhecimento ou cultura, mais sim, a forma que reagem as situações que a vida lhes impõem, e a forma que se comportam em relação a harmonia desse planeta, e que nisso se inclua principalmente o convívio com o seu semelhante indiscriminadamente.
Estou compreendendo que são essas diferenças, a individualidade exclusiva de cada  um, é o que torna todos semelhantes. E por isso que nesse contexto é imensurável a grandeza de cada um, pode ser que o mais pequenino aos olhos da sociedade e das aparências, venha a ser a imensa âncora desse conjunto necessitado de equilibrio. É a chamada pirâmide invertida da natureza, onde a espiritualidade se serve da base simplória para buscar elementos fluídicos necessários para socorros aos necessitados de boas energias, enquanto o pico permanece na inércia da colaboração energética, sendo um peso para equilíbrio natural.
E entenda meu amigo porque minha angústia, o fato em si é tão difícil de se perceber, que nesse momento me considero parte do pico dessa Pirâmide.
Pode publicar nossa conversa como quiser, será uma honra, a propósito posso utilizar três dos seus vídeos ? claro que com todos os créditos inclusive seu site, numa palestra espírita que estou preparando, sou expositor espírita e sua mensagem vem de encontro ao que queremos passar nessa palestra. Aguardo seu retorno para o mesmo, e compreenderei se a resposta for negativa.
Um grande abraço,
Marcos R Martinez
 
 
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Marcos, meu amigo:
Ao longo da caminhada somos expostos a inúmeras correntes de pensamentos, doutrinas, teorias e afins. Não é só isso. Vivemos em dias dificeis, onde o fluxo natural é baseado em consumo e imagem. Coloque tudo no pacote e veja o quanto somos intoxicados, o quanto nossos sentidos naturais de percepção ficaram entupidos.
Entre em uma sala com muitos sons. Você só ouvirá barulho e não discernirá nenhum.
Entre em uma sala com muitos cheiros. Será que conseguirá diferenciar cada um ou o que sentirá será a somatória de todos que criarão outro cheiro?
Olhe para uma paisagem carregada de cores imagens, uma rua lotada de gente, uma multidão na arquibancada e o que verá além do volume, da massa, do produto da somatória de muitos ?
Agora me diga: O que de melhor podemos extrair dos discursos religiosos, a não ser que façamos ao próximo o que gostaríamos que façam a nós? Que no fluxo de hoje, sejamos subversivos, como quem entende que não é a imagem ou o ter, mas é no ser que ninguém vê que realmente seremos ?
Qual religião estimula a ligação dos bichos que vivem na selva, da selva que cuida dos bichos, da natureza que -apesar de nós- nos cuida, alimenta e proporciona a vida no planeta ? Por acaso os peixes nas profundezes do oceano tem religião ? Qual a doutrina de um lobo no Oeste americano ou do cachorrinho que mora em nossas casas ? E aquela criança, cheia de simples doçura e percepção do que realmente importa, foi doutrinada em qual dos “ismos” ?
Meu amigo, somos parte disso e o software da fé (mente de Deus- como tem se falado por aí) já nasceu em nós. Nossa única tarefa é ver, escutar e perceber o que já está aí com simplicidade.
Eu falava da intoxicação a que estamos expostos só pra lembrar que essa é a causa pela qual acreditamos que são os ritos, doutrinas e “ismos” que nos levarão a algum lugar.
Me diga: que religião está além do que naturalmente posso ser e fazer por quem precisa ?
Preciso de uma doutrina pra saber o que é bom ? De um livro para entender o que é natural nos bichos, na natureza e em nós mesmos ? Que diferença faz se eu acredito que o céu é de ouro, algodão, se parece com um hospital ou se existe em um dos mundos paralelos ou se é dentro de mim ?
O que muda se chamo a Deus de deus, alá, o qualquer nome que pretenda dar? Muda o que além de nossas bobas ambições e tamanha capacidade de discutir, brigar e matar pelo que não tem a menor importância ?
Quer saber a verdadeira religião? Viva a vida com simplicidade, resgate o “dom” de ver que todos um dia já tivemos, subverta os conceitos do fluxo dos dias de hoje e perceba a vida como milagre.
O resto, o que sobrar e não fizer diferença, a isso chamaremos de religião.
Simples assim.
Quanto aos videos, fique a vontade ! Ficarei feliz em saber puderam ser úteis.
Abração!
Flavio

Esteja atento

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Esteja atento: o mundo, a vida, o dia, o agora estão entupidos de pequenas coisas, de detalhezinhos, de sinais, sutilezas, movimentos que tem muito à dizer, muito a acrescentar, muito a ensinar, todos absolutamente carregados das respostas que você, desatento, reclama não ver.

Quando nosso mundo é um cubículo

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Enquanto você está ai diante do computador, bilhões de acontecimentos diferentes se projetam em gente no mundo todo. Agora tem gente sofrendo e gente feliz, uns acabam de receber a noticia esperada, outros a que temia. Apesar de nossas próprias experiências e nosso limitado arcabouço de percepções, há bilhões de desfechos, caminhos, alternâncias, lhe rondando, aproximando, ora afastando, mas presentes e reais como possibilidades. Um único movimento pra lá e tudo pode mudar. Um recuo, uma curva, acelerada ou freada e a vida toda vai em outra direção. Vivemos no mundo das possibilidades e o fato de só conseguirmos enxergar uma ou duas variáveis não muda o fato de que tudo está em aberto, pode acontecer e, hora ou outra, refletirá nos acontecimentos o que está se desenhando em sua interioridade.

O bem e o mal que sai de nós

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Já reparou em situações onde o que é bom, o que faz bem, o que gratifica, revela o pior de quem vê?
Muitos de nós, ainda que de maneira sutil, guarda um “justiceiro” no coração, aquele que mede se fulano merecia, se foi “bem feito” para sicrano, se a medida que a vida tratou de si ou do outro fosse algo completamente equivocada, como se víssemos com clareza todas as conexões, todos os caminhos, todas as ligações e estivéssemos prontos para espalhar vaticínios por 360 graus.

Não se trata daquele que almeja o equilíbrio, que busca a justiça e que sabe se alegrar com a alegria do outro. Me refiro ao sujeito que não consegue mais ser feliz, sentir-se bem sem que sua própria lógica de justiça seja aplicada em tudo e todos.
É quando olho indignado para quem, apesar de ter caminhado menos, menor formação, menos “qualidades”, recebeu igual ou melhor “recompensa”. Isso não é justo! Fiz muito mais, sou muito melhor, o mundo não me entende! – resmungamos no íntimo.

Usamos uma lógica própria, linear, referenciada no limite de até onde posso enxergar naquele momento. Esperamos que a vida nos trate a partir de critérios egoicos, quando na realidade nossa aritmética baseada em pseudo merecimento não tem a menor influência no resultado final. No fim das contas o sol brilha para todos e a chuva não poupa ninguém. Isso nos deixa indignados !
A crença na ilusão de que nossos corações confusos, almas mesquinhas, mentes inquietas, são suficientes para definir os “castigos” e “recompensas” do outro e de nós mesmos, é um dos maiores geradores de gente amargurada, que nem sempre confessa ou conhece a razão, mas que vive sob protesto, sempre olhando para o outro, sempre preocupado com o que não é da sua conta, sempre descontente por que as coisas dificilmente acontecem exatamente conforme o script fixado na mente.

Esse não vê as bilhões de possibilidades a sua volta. Não percebe quando uma porta abriu ou que chegou o tempo de fechar a que estava aberta. Não consegue fazer conexões entre acontecimentos, não enxerga as sutilezas do caminho, não entende as assimetrias, os desvios, as curvas necessárias para continuarmos na rota. Como projetar luz sobre o que aparenta escuridão quando estamos absolutamente fechados, fixados em uma única possibilidade, única causa, único cenário, irresolutos, birrentos, ranzinzas?

Acredito que um dos maiores desafios em nosso desenvolvimento humano é aprendermos a expandir nossa referência, abrindo mão de medir por meus limites e simplesmente prestar atenção em como os acontecimentos se conectam, as nuvens se dissolvem, as dores são temporárias, em como experimentamos sempre, não necessariamente o que achamos justo, mas absolutamente o que precisamos para que sejamos melhores, mais humanos, mais sensíveis, mais profundos. Não sabemos o caminho porque não vemos com clareza. Porque só olhamos para o próprio umbigo.
Não enxergamos o que somos de fato, quanto mais o outro, quanto mais os encaminhamentos, as harmonias e desarmonias que se desenvolvem enquanto ando. Só vejo em parte, só até o horizonte, só até os obstáculos, apenas sombras, miragens projetadas por um ser incompleto, ruídos da mente, desvios do coração.

Quem sabe o que é bom e o que é mau? Quem sabe onde esse ou aquele caminho terminará? Quem pode prever as conexões, hora “boas”, hora “más”, que sempre acabam desembocando em renovação, em experiência, em desconstruções, em rupturas, em crescimento?

Pare de olhar em volta e preste mais atenção em seu caminho. Deixe de se sentir afetado, injustiçado ou recompensado pelo que quer que seja, não barganhe com isso, apenas perceba, observe, concentre-se em onde tem andado, foque em seu próprio caminho, desenvolva a capacidade de conectar acontecimentos, reconheça como tudo foi importante para que hoje você seja quem é, ainda que esteja em processo de transformação, crescimento, amadurecimento. É isso que devemos priorizar, é para dentro que precisamos olhar.

Andar consciente de que aprender a amar é a finalidade de todas as experiências me expande o horizonte, redimensiona meus limites e me ajuda a perceber no simples, no cotidiano, no que quase ninguém presta atenção, valores, verdadeiros tesouros, razões para genuinamente me alegrar, grato por entender que a verdadeira justiça não se desenvolve sobre minhas projeções relacionadas ao que é ou deveria ser, mas, sobretudo, na percepção de que posso trilhar meu caminho, contraditório muitas vezes, dolorido outras tantas, mas sempre pleno da certeza de que tudo o que espero, projeto ou almejo lá fora, antes de tudo, deve ser correspondido, saciado e desenvolvido aqui dentro, onde de fato devo olhar, onde todas as coisas realmente acontecem.

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