Tudo o que você já sabe

Padrão

Sei que você sabe muitas coisas. Sabe que bem e mal moram dentro da gente, que os acontecimentos não carregam nada que não seja projeção do nosso olhar. Já escrevi muito sobre isso. Provavelmente você já leu muitos textos meus – e de outros – falando sobre o agora, o dia chamado hoje, o passado miragem, futuro ilusão e sobre a necessidade de despertarmos, enxergarmos no cotidiano, no simples, na vida, hoje, agora, as respostas que tantas vezes projetamos lá longe, distante, inacessiveis, inalcançáveis. Eu quase apostaria que não será nenhuma novidade, nada novo, nada inédito para você, se me ouvir falar sobre nossa tendência para autossabotagem,  nossa dificuldade em aceitar que geralmente aquilo que mais tememos, aquilo que nos amedronta e desgasta, é só uma ameaça, um ruído que não existiria se desistíssemos de acreditar em todas as fantasias sopradas por nossas mentes impressionadas, apequenadas, restritas no tempo e espaço. Não sou o primeiro, o único, nem o último a dizer que o mundo lá fora reflete o mundo aqui dentro, que nossos corpos são fronteiras entre as paisagens impermanentes e as atemporais, entre projeções e significados, entre o que parece e o que é. Quando estamos em paz, a paz se projeta como realidade, cala ruídos, reverte tragédias. Você sabe muitas coisas, nenhuma dessas é novidade, sei disso.  Mas também sei que as vezes a gente se esquece, que, de vez em quando, só vemos o que incomoda, que há momentos que o dia parece ter virado “dia mau”. Quando é assim, não custa lembrar, ainda que, repetitivo, escreva de novo só para reforçar, cessar a angustia e dizer mais uma vez tudo aquilo que sei que você já sabe.

Antes que o dia começasse

Padrão

Antes que esse dia começasse de fato, ele começou em você.

Antes do sol, dos pássaros, dos primeiros movimentos, antes do primeiro bom dia, compromissos, correria, antes do café ou do despertador, antes de tudo, tudo começou em você.

Expectativas, planos, medos, receios, vontades, preocupações, soluções, perguntas e respostas, estão todos aí dentro.

Tudo mora em você, então, dê o tom: viva com alegria ! Perceba a vida com gratidão, valorize as pessoas, mude as perspectivas, permita-se outras escolhas, desvencilhe-se dos vaticínios, dê mais valor as coisas simples, aos sinais que te cercam, veja, está tudo ai, perceba, desentupa os sentidos.

Preste atenção no que sai da sua boca, no que entra em sua mente e contenha seu ímpeto, demore em opinar, reflita.

Se existem bilhões de maneiras para fazer o que você faz. Outras bilhões para dizer o que você diz, por que apenas não escolhe um jeito melhor?

Seja prudente, trabalhe com sabedoria, seja simples.

Antes de enfrentar os leões, vença a si mesmo, aquiete a mente, pacifique o coração.

Ainda que você relacione uma extensa lista de problemas, acredite, independente deles, pode ser apenas isso que você precisa para, de fato, ter um dia melhor.

Não aventure-se em nenhuma batalha, antes de aprender a dominar-se.

Por que simplesmente não tenta?

Como nos “desbloquear” para Deus? – Pergunta leitora

Padrão

Pergunta leitora: Minha mãe há cerca de 7 meses sofreu um AVC onde ficou com bastante sequelas da parte cerebral,já antes de lhe ter dado o AVC ,desde que me lembro, foi sempre uma pessoa negativa,agora o tempo vai passando e não vê melhorias tão rápido como desejava, vai-se abaixo muito facilmente o que a leva a ter pensamentos negativos, na qual pensa muitas vezes na morte ,pedindo a deus que a leva para junto dele. Penso que está bloqueada em falar com deus. Gostava que me ajudasse a conseguir que ela possa ter uma melhor relação com deus para encarar de uma forma mais positiva esta fase que está a passar.

Resposta Flavio: Durante a vida sua mãe projetou a negatividade nos outros, nos acontecimentos, no mundo. Ela nunca teve coragem para se enxergar de verdade e encarar o que, durante tanto tempo, lhe serviu como açoite, como carrasco, como prisão. Hoje ela está fragilizada, com medo e irritada, mas, acredite, ela pode se “desbloquear” em relação a Deus.

Primeiro, não construa um deus pra sua mãe. Não faça questão que ela tenha a mesma concepção que você, que enxergue pelo mesmo ângulo, que pense da mesma forma. Deus é bem maior do que achamos que é e transcende nossas explicações. Deus é tão maior do que nossos dogmas, nossas crenças, nossos esteriótipos, portanto, não se prenda a um conceito, não construa um deus para sua mãe.

O que estou querendo dizer é muito simples: não se preocupe com o que ela fala em relação a deus, até porque, provavelmente a negatividade que ela alimentou a vida inteira, contribuiu para a construção de um deus religioso, um deus mau, um deus que de fato merece, no mínimo, ser objeto de nosso desconforto.

Portanto, minha amiga, não fale de Deus, não use as quatro palavras D-E-U-S, são apenas letras, quatro letras, conceitos fechados. Deus não é um conceito fechado, nem quatro letras. Deus são todas as possibilidades, as que imaginamos e nunca sonhamos, as que cogitamos e sequer pensamos e o único jeito de concebê-lo, ainda que limitado as nossas percepções é a partir da experiência do amor.

Deus é amor. Não é um código, um nome, um líder religioso. Quer que sua mãe se “desbloqueie” para Deus? Simples: ame-a. Ame acima do mau humor, acima dos xingamentos, acima da ingratidão. Ame sua mãe acima do que ela pode corresponder, acima de quanto pode agradecer, bem mais do que ela pode reconhecer ou entender.

Ame-a. Ame quando ela não quiser falar, ame quando ela estiver de mal, ame mesmo que ela chame seu amor por outro nome. Ame com serenidade, mas também com firmeza, com clareza, com força suficiente para dizer não quando necessário. Ame com compaixão, mas também com assertividade, que seu amor lhe mova para abraçar e lhe de discernimento para saber quando é hora de se afastar, de deixa-la pensar, aprender, crescer.

Esqueça a ideia de deus, não se preocupe com essa construção. Simplesmente seja Deus, amando do fundo do seu coração, de verdade, com paciência e sobriedade e, quando menos esperar, ainda que nem sua mãe saiba, ela estará na dimensão de Deus, Nele, plena, pois experimentou o amor e isso lhe bastará. Pense nisso !