Por que dói? Por que tanta oscilação?

Padrão

Pergunta leitor: Flavio, tenho uma vida tão especial, tenho uma família muito boa, me relaciono bem com todos!
Tenho amigos queridos, gosto do meu trabalho profissional, estudo o que gosto, constantemente estou em contato com a natureza que eu amo, cuido para ter praticas saudáveis: não como carne, ouço musicas ‘orientadas’, não me alimento de tv e porcarias, tiro um tempo diário a noite para pensar e escrever sobre meu dia e aprendizados, acordo de manha e faço meus agradecimentos e intuições, sorrio muito para a vida de forma geral, consigo me alegrar com pequenas coisas, mas tem dias que não tenho vontade de levantar da cama!
Sinto vontade de me fechar em um casulo e sair só depois de alguns dias… Tristeza, solidão, cobranças e irritações vem me visitar…
O que é isto? Por que tanta oscilação?

Resposta Flavio: Somo assim, seres ambivalentes, carregamos luz e escuridão e as vezes uma ou outra tenta ocupar mais espaço. Na verdade não existem fórmulas e por mais sadio e recomendável que tenhamos uma vida tranquila, uma alimentação equilibrada, bons relacionamentos, nada impede que ás vezes sejamos confrontados com áreas descobertas, sombras que carregamos sem saber, dificuldades a serem melhoradas, percepções para aguçar. Não se preocupe. A felicidade traz pontuações de tristezas, não necessariamente por nenhuma inconsistência, mas como ferramente de equilíbrio para a mente, que, entregue a um estado permanente de alegrias, se entorpeceria.
Nossa cultura, além de nos sobrecarregar, incute todos os dias a necessidade de “ser feliz”, ainda que a tal felicidade proposta seja tudo, menos consciência. Ainda que todos queiramos ser felizes, ainda que estejamos caminhando para isso, ainda que minhas escolhas diárias mantenham essa intenção, ainda assim, como seres relativos que somos, temos a oportunidade de experimentar estágios de dores, de tristezas muitas vezes inexplicáveis, mas que apontam para um constante caminhar, ajustamentos interiores, reorganização de prioridades, inquietudes que podem doer, mas me tiram da zona de conforto e, se aceitas e não combatidas com mais angústias, produzirão um ser experiente, lúcido, sábio, pacificado e, finalmente, equilibrado. Feliz, apesar das tristezas.
Existem as tristezas causadas por componentes (ou a falta deles) químicos e nesse caso uma consulta médica ajuda, mas não é sobre esse que me refiro. Falo sobre dores de seres sensíveis que existem em meio a contradição, que carregam ambivalências na interioridade, experimentando a finitude, ainda que a partir da perspectiva de uma consciência infinita, que aprendem com dores muitas vezes, mas sempre diante da oportunidade de escolher que significado darão ao que acontece, de crescer e aprender a amar. Nem sempre é fácil, mas talvez, se fosse tão fácil, não aprenderíamos jamais.

Nosso caminho no Universo

Padrão

Sob a perspectiva da imensidão do universo, nosso planeta não passa de um grão de poeira. Há corpos espaciais absurdamente maiores que o nosso, mas mesmo assim, nenhum deles representa coisa alguma diante do que nossa ciência só sabe que é maior, bem maior do que pensamos. Aos poucos, lentamente, incluímos em nossas perspectivas dimensões, realidades paralelas, multiversos sem fim, absolutamente carregados, entulhados, entupidos de mistério.

Não precisamos ir tão longe. Pense nos humanos. Pense em você. Ser finito, preso no tempo e espaço, dependente de milhares de processos e combinações químicas para sustentar um corpo que envelhece rápido e fora de controle.

Pense no contraste entre as ínfimas dimensões de nosso planeta diante da realidade abismal, insofismável, imperscrutável daquilo que chamamos de Universo. Nascemos, crescemos, nos reproduzimos, sonhamos, conquistamos, queremos, aprendemos, pensamos, amamos, perdemos, projetamos, envelhecemos e morremos em um lapso, dentro desse “pálido ponto azul”, como disse uma vez Carl Sagan.

Agora, pense no significado de viver 80, 90 anos em um corpo finito, diante daquilo que chamamos de atemporalidade, espectadores da constante manifestação do mistério que só nos aponta para o incompreensível, para o sem fim.

Não importa se vivemos 6 meses ou 90 anos. Se morremos bebês ou senis, o fato é que nada é mais do que um flash, um abrir e fechar de olhos diante da elasticidade do tempo e de um espaço sem fim.

Apesar disso tudo, há um espaço no finito, um lugar desconhecido e misteriosos que chamo de consciência, onde cabe o infinito. Convivemos dentro de um paradoxo existencial, onde as multidimensões, o mistério absoluto, o desconhecido, encontra abrigo na interioridade de um ser que pode transcender-se, superar-se e, no fim, vencer a própria morte.

Quem somos nós diante da imensidão do Universo? Quem pode dizer que seus planos são importantes ou que suas metas, limitadas, pueris, restritas as suas próprias compreensões e leitura sobre si mesmo, farão qualquer diferença no andamento da ordem das coisas, no cosmos que não conhecemos, na vida que não sabemos definir? Qual o valor de uma existência que não sabe a que veio, que se perde, se definha todos os dias e agoniza na tentativa de distrair-se e enganar o que chamamos de morte?

Vida e morte só existem dentro da gente e nossas escolhas diárias nos empurram em suas direções. Somos um pouco de tudo isso, vinculados uns aos outros, presos a temporalidade, mas inexplicavelmente, absolutamente conectados ao mistério, ao sem fim.

Sendo assim, que planos importantes posso ter além de expandir meu próprio universo interior? O que parece mais relevante do que desentupir minhas percepções, dilatando minha mente, conscientizando-me da necessidade de harmonização com a vida, a morte, o mistério e seus caminhos?

Olho para dentro, me enxergo e faço as pazes comigo. Reconheço minha natureza, a espantosa fugacidade desse corpinho finito, enquanto admito que paradoxalmente o Universo cabe dentro de mim. Só me resta a incondicional entrega ao que chamo de Graça, que não explico, não entendo, não interfiro, mas que repousa em cada fagulha de vida, em cada corpo celeste, cada dimensão de mistério.

José Saramago definia a morte assim: “Hoje estamos, amanhã não mais”, talvez, sob a perspectiva da temporalidade ele tenha razão, no entanto, mesmo reconhecendo a fugacidade da nossa existência, resta a certeza de que, nesse lapso que é a vida, meu mundo aumenta na mesma proporção que minha interioridade e, ainda que o Universo seja sem fim, tenho todos os dias a chance de perceber dentro mim, correspondência com aquilo que não entendo, mas ainda assim me habita, me transcende e me ajuda a perceber que meu caminho na Terra é só um caminho de volta para casa.

1269094134-xb66qo5