Um pouco de silêncio

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Pare um segundo. Sim, pelo menos enquanto me lê por aqui faça uma pausa e preste atenção nos sons ai do seu ambiente. O que ouve? Vozes, ruídos, carros, gente, passos, maquinas, o que ouve? Agora repare que grande parte desses sons pareciam não existir até agora a pouco, eles se confundiam com os sons produzidos por sua própria mente. São esses que costumamos ouvir e são eles que geralmente se sobrepõe a todos os outros, tornando nosso existir em um permanente estado ruidoso, barulhento, confuso. É por isso que não suportamos o silêncio, como se pudéssemos evitar que nossas mentes, sobrecarregadas, barulhentas, não nos incomode, não nos pergunte, não nos questione. Falo muito sobre a necessidade de nos aquietarmos por acreditar que nenhum passo consciente pode ser dado no meio de tanta confusão, tantos apelos, tantas vozes. Tomara que esse vídeo com seus pouco mais de cinco minutos ajude a silenciar sua alma hoje. E que a paz te envolva e te acolha. E que o dia clareie. E que tudo fique bem.

A graça e a naturalidade

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Não consigo gostar de frases prontas, sem vida, sem alma, sem verdade.

Não gosto de nada que seja plástico, artificial. Me incomodo com tudo o que se fixe apenas na estética ou usa as emoções como meio, como apelo a qualquer coisa.

Nunca vi graça em crianças “novos talentos” , aquelas com jeito, roupas ou trejeitos de adulto, sem doçura, sem inocência, sem simplicidade, tristemente incentivados por pais vazios que tentam se compensar nas pobres crianças.

Para mim, a graça está na naturalidade. Se não for natural, não há graça.

Mas como falar sobre isso em um mundo cada vez mais referenciado em aparências, onde a forma vale mais do que o conteúdo?

Os políticos  e, principalmente seus marqueteiros, sabem muito bem disso. Melhor do que uma proposta coerente, é uma discurso emocional, voz embargada, promessas, olhar austero, movimentos firmes, camisa com mangas dobradas (como se estivesse trabalhando), maquiagem, sorrisos , acenos, de preferencia com crianças em volta.

Nós gostamos disso. Aplaudimos. Acreditamos. Votamos. Incentivamos um mundo de corrupção em troca de 1 minuto a mais na TV.

Todos os dias recebo “orações”, “poemas” ou histórias “inspiradoras” onde só consigo ver clichês, chavões com muito mel e açúcar e fico pensando como tem gente que acha bonito?! – e no fim repassa aquele mel gosmento para toda sua lista de contatos.

Gosto é gosto, alguém pode argumentar. Claro, mas não é questão de gosto, de forma, necessariamente de estética, mas falo sobre a nítida falta de inspiração: vento em embalagem de cristal.

Em compensação, quando é de verdade, pode ser feio, anti estético, sem regras, pé nem cabeça, desorganizado, mas, se vier do coração, virá carregado de beleza. Da verdadeira beleza. De graça. Da Graça.

Sem preocupação com técnicas as pessoas só abrem a boca e deixam que as palavras fluam.

Sem esperar pela aprovação, entregam o coração e mostram o que tem na alma.

Ter técnica é muito bom, mas técnica sem alma não nos leva muito longe.

Os olhos mostram o que tem na alma, a boca fala sobre o que enche o coração, o som é sempre bom quando vem do íntimo. Como uma criança desafinada cantando, como uma voz velha, cansada e experiente falando com sabedoria, como a multidão de sons da floresta, como a assimetria dos traços de quem amamos, como a explosão de cores das flores, como o barulho do vento, como as ondas do mar que vão e vem, como a chuva que cai torrencialmente, como o respirar noturno, no meio da madrugada, de quem tanto queremos bem, como aquele som da panela de pressão da mãe cozinhando o feijão, como o bilhetinho de amor, como a confissão da saudade, como o choro de alegria, como o reencontro, inesperado, sonhado, vivido.

O que sai das suas produções diárias revela o que tem dentro de você.

É por isso que nos revelamos em tudo o que gostamos.

No jeito, nos toques, gostos, conceitos, leveza ou dureza; nas palavras, sentidos, caminhos, medo, motivação, no que nos inspira ou entrete, agrada e embala e, principalmente, no olhar, no jeito de enxergarmos a vida uma confissão sobre quem de fato somos.

Clichês não tem alma. Versinhos melosos geralmente são vazios. Palavras bonitinhas, muitas vezes, não passam de palavras bonitinhas, e olhe lá.

Palavras por palavras, prefiro as que vem do coração. Essas carregam beleza natural e involuntária, aquelas que a gente logo sente em tudo o que é bom e verdadeiro.

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O espelho de dentro

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Quem só nos vê passando pela rua, apressados, distraídos, falando ao celular, entre as vitrines do shopping, os corredores da empresa, a garagem do prédio, não nos reconhece. Somos mais um, parte da multidão, ingrediente da massa.

Na fila do banco, no trânsito ou na sala de embarque do aeroporto, você só faz parte do cenário, um a mais e, portanto, não é você, é só alguém, ou ninguém.

Para os outros você é personagem daquele cenário: trabalho, trânsito, rua, restaurante…

Mas nada melhor do que as estatísticas para nos transformar em números.: Segundo especialistas em pesquisas, entrevistando 2.500 a 3.000 pessoas, é possível saber o que o Brasil pensa sobre qualquer coisa. Basta a média e pronto.

São amostragens, quantitativas, estatísticas e você se transforma em mais um.

Aprendemos a lidar com a vida de maneira superficial porque não costumamos nos enxergar, vemos pelo olhar do outro. Costumamos nos categorizar de acordo com o ambiente, os olhares, os créditos, os títulos, os códigos, acreditando que realmente somos aquilo.

É por isso que, muitas vezes, o grande líder não sabe lidar com a família e foge do filho, ou o cara que é reconhecido por todos pelo que faz, admirado, aplaudido, invejado, não sabe lidar consigo mesmo. Por mais que cada ambiente exija de nós determinadas posturas, de fato somos o que somos, afinal de contas, sou eu quem devo influenciar o ambiente e não ele a mim.

É bom para os negócios criar categorias e nos colocar nelas . Sem que percebamos somos levados pela maré a pensarmos, sentirmos e agirmos todos da mesma maneira. Muitos perdem, poucos ganham quando deixamos de ser o gente e viramos massa.

Quem é você além do que os outros enxergam ? É capaz de se ver sem usar as lentes alheias?

Além do profissional, do motorista, do cara que da bom dia na portaria, o que tem por aí?

Existe um espelho que fica do lado de dentro.

Nele você é chamado a se enxergar e ver o que os outros não veem.

Olhando para ele corremos riscos. Podemos nos machucar, surpreender ou magoar os outros. Poderá ser preciso romper laços, cessar padrões de comportamento e mudar de atitude, abandonar a máscara, mas isso só quando você se vê.

Não se ocupe em ser aceito, se aceite.

Muito mais do que o profissional, pai, mãe, filho, irmão, amigo, vizinho, colega, você é um ser único e aceitar isso pode ser assustador.

É só questão de tempo.

Tente se enxergar, aceitar seu silêncio, ser seu amigo, encare seus medos, traumas, limitações, ouça com calma, sem culpa o que eles tem a lhe dizer.

Ainda que seja por alguns segundos, tente se enxergar.

Aceitando sua humanidade aceitará a dos outros e, quando deixar a toga de juiz da humanidade não se sentirá mais julgado e, portanto, livre.

Livre-se da sobrecarga, você não precisa dela.

O espelho está aí. Pelo menos por alguns segundos deixe de olhar para os outros. Esqueça a culpa e as cobranças e olhe para dentro. Pode demorar um pouco mas logo verá o espelho : Será hora de se aquietar, silenciar-se e, finalmente, reconhecer-se.

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