Sobre a noite passada

Padrão

O que houve na noite passada ?

Não. Se você sentiu calor,frio, teve sede, acordou de madrugada, levantou cedo demais, não é isso que quero saber.

Por exemplo, quando o relógio marcava 3:04 AM, onde você estava ?

Talvez já estivesse deitado, provavelmente no quinto sono, mas isso é o máximo que consegue me dizer ?

Se o dia tem vinte e quatro horas e em cada uma delas seu corpo preenche um espaço na existência, o que eu quero saber é: o que houve exatamente com você na última madrugada?

Quando vamos dormir saltamos no escuro. Se durante o dia você tenta manter as coisas sob controle, sabe que, ao deitar, não controlará mais nada.

Seus sinais diminuem, suas pálpebras pesam, pensamentos se confundem e o rico empresário, pobre porteiro, garçom, engenheiro, ator, costureira, médico, mendigo…todos se igualam.

Deitados na cama ou no chão nos despimos daqueles que tentamos convencer aos outros que somos.

Olhos fechados, corpo inerte, sem poses ou imagens a não ser aquelas que habitam no inconsciente.

Onde está o doutor ? Cade o famoso, abnegado, virtuoso fulano de tal ?

Nas ruas pouca gente. Quase não se ouve passos e a agitação das grandes cidades cede lugar a calmaria.

Centenas, milhares, milhões deixaram de interferir.

Durante algumas horas estarão vulneráveis. Enquanto o mundo continua girando e a existência em pleno curso, estarão entregues as divagações do inconsciente e ao repouso do corpo.

Serão assombrados, resgatarão fragmentos de pensamentos, terão insights, enquanto rostos, vozes, situações, lugares e tempos se misturam sem que você entenda o porque de tudo aquilo.

Não importa quem você pensa que é, ninguém resiste ao fechar dos olhos e ao desligamento da consciência.

Hora do inconsciente que insinua, aproxima, envolve, domina, guia e trás de volta sem que você saiba por onde esteve.

Na manhã seguinte tudo o que lembraremos é que: tive mais uma noite de sono.

O arrogante e o humilde, gênio ou débil, rico ou pobre, despertarão em seus corpos e, a luz do dia, representarão seus papeis sem lembrar que, daqui a pouco, seremos todos iguais.

O que houve na noite passada ?

Enquanto você não falava o mundo continuava a girar, sem seu trabalho, a lua cumpriu seu papel, em sua viagem ao inconsciente, tudo estava no seu devido lugar.

Onde estava mesmo minha importância ?

Somos todos iguais, feitos do mesmo material e todos os dias somos forçados a lembrar disso.

Na noite passada houve mais uma entrega ao desconhecido, silêncio e encontros com a profundidade dos pensamentos, viagens ao secreto… Na noite passada, você estava igualzinho aos que despreza.

Se o dia tem vinte e quatro horas, lembre-se : em boa parte delas nada nos diferencia só para lembrar que não temos controle de nada a não ser a possibilidade de fechar os olhos, esquecer os pensamentos e simplesmente se entregar.

Quando aprendo a me entregar, deito e relaxo. Fecho os olhos em paz, sabendo que amanhã terei mais uma oportunidade no tempo da minha consciência, até a próxima noite.