Desenvolvimento espiritual – verdades e mentiras

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Antes de querer ser espiritual, seja humano. Antes de quer ser “luz do mundo”, seja luz com os seus, no seu ambiente, no seu contexto. Quem quiser ser relevante para os outros, seja antes para si mesmo, especialmente no que concerne seu próprio olhar e a maneira como lida com o próximo.

Ainda sobre as manifestações

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No começo da semana, quando publiquei minha opinião sobre as manifestações no país, deixei bem claro porque não acredito que haverá uma lista tópica de exigências, um líder dialogador, uma cara que uniformize o movimento. Mesmo antes que prefeitos anunciassem redução simbólica nas tarifas de ônibus, estava claro – pelo menos para mim- que trata-se de um grito, um vômito, reflexo de anos de anos e anos de estupro moral, de tentativa de socar goela abaixo do povo o discurso que não há outro jeito de construir um país mais justo e menos desigual.
Recebi alguns comentários de gente querida chateada com minha opinião, argumentando, entre outras coisas, que o país se desenvolveu nos últimos dez anos, que o povo passou a ter acesso ao que não tinha, que houve avanços indiscutíveis e que a corrupção não foi inventada pelo PT, mas sempre existiu e muito . Concordo com todas essas afirmações, mas não se trata disso.
A crítica ao PT é maior porque é dele, especialmente do seu líder, que se esperava conexão entre o discurso e a prática. A retumbante votação do Lula no primeiro mandato, era a clara expressão de um povo cansado da corrupção do PSDB, PFL (a época), PMDB etc… Todos se emocionavam em ver um cara que já foi operário assumir a presidência da república.
Lula fez boas coisas, outras ele deu continuidade, teve sorte, teve acertos, teve erros também, mas, sobretudo, sua escancarada boa vontade em abraçar Sarneys,Collors e Renans da vida, sua avidez com cartões corporativos, sua complacência com a corrupção justificada, mal explicada, o argumento de que “mas a oposição também faz”, foi rompendo a alma do brasileiro, especialmente dos estudantes, do cidadão médio que, apesar de ver benefícios sociais, não se conformava em crer que, os tais benefícios, justificassem o fundo do poço de nossa política, os conchavos assumidos, os incontáveis ministérios, a tentativa de “controle” da imprensa, o tom messiânico e populista do governo, os décimos quartos e quintos salários, o auto beneficiamento dos representantes do povo, a cínica retórica, o apoderamento da maquina pública e a sensação de que, se houve avanços sociais, deixa para la, afinal, sempre foi assim.
Na minha opinião a súbita esperança que outrora venceu o medo há pouco mais de dez anos, a exemplo da paixão que mal correspondida pode transformar-se em ódio, precisou desses anos para que seu refluxo explodisse como hoje estamos vendo.
Não é um protesto contra o PT, a Dilma ou o Lula, mas não é razoável argumentar que eles não tem nada com isso, que o povo é ingrato, que milhões de brasileiros protagonizantes de um movimento histórico são mimadinhos enciumados e preconceituosos que não aceitam a ascensão popular ou a eleição de um operário (que, convenhamos, deixou de ser operário há décadas). Trata-se de uma insatisfação generalizada, um grito de socorro, um apelo por mudanças profundas, uma nítida expressão de esgotamento depois que uma das últimas esperanças de mudanças estruturais acontecessem. Quando ficou claro que não aconteceria, quando tudo parecia perdido, a explosão que agora se direciona, não a um partido político, mas merecidamente ao sistema político de maneira geral. Por isso, não espere lista de reivindicações, protestos organizados e controlados, é um grito, um basta, um vômito coletivo.
É preciso enxergar o que há por trás das imagens de milhares e milhares de gente nas ruas, de um movimento inédito em nossa história, de uma insatisfação generalizada que acuou governantes e voltou os olhos do mundo ao Brasil. É preciso entender que há efeitos colaterais para o bem e para o mal, que os quebra quebra (que acontecem em qualquer aglomeração popular) não dão o tom das milhares de pessoas que tem tomado as ruas pacificamente, que estamos diante de algo extremamente novo, em sua organização e consequentemente em seus imprevistos reflexos e, talvez por isso, o governo esteja tardando em demasia, acuado, fechados em seus gabinetes, saindo pela porta dos fundos e quietos. Eloquentemente quietos.
A história tem sido escrita, as vozes se sobrepõe, tem gente que enxerga primeiro, outros demoram um pouco mais, de qualquer forma, independente de como tudo isso termine um fato é inegável: algo tem sido adicionado a alma do brasileiro e, diante disso, aconteça o que acontecer, esse país nunca mais será o mesmo.
Não fique chateado comigo, mas não me sinto a vontade em ignorar todos esses eventos. Essa é minha opinião.

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