Almas sequestráveis

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Só nos mantemos algemados emocionalmente a alguém enquanto alimentamos algum tipo de expectativa de que esse alguém nos beneficie de alguma maneira, seja emocionalmente, financeiramente, socialmente, sexualmente, intelectualmente… Nesse caso a completa desilusão é o único antídoto que liberta uma alma da outra, desvinculando-as, desconectando expectativas, voltando o olhar do sequestrado para si mesmo como fonte supridora do que antes projetou em alguém.

Sobre os protestos pelas ruas do Brasil

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Ontem fiz questão de acompanhar o andamento e a repercussão das manifestações no país. Houve exageros, violência de ambas as partes, certa desorganização, é verdade. Mas, sinceramente, insistir nesses tópicos para desqualificar um movimento dessa proporção, que engloba dezenas de cidades e milhares (se não milhões) de pessoas é no mínimo tapar o sol com a peneira. Acho que essa repentina explosão, mesmo a falta de lideranças e de uma “pauta” clara, sinaliza que o descontentamento com o transporte público e o preço das passagens foi apenas o estopim para algo preso, achatado, entalado na alma, especialmente da classe média brasileira. As vaias para a presidenta na abertura da copa das confederações foi suficiente para que bons entendedores percebessem que havia algo mais, algo além do discurso do governador do DF que saiu dizendo que foi manifestação “comprada”. Mas, todo o estádio, governador? O país todo?
A ostentação do índice de aprovação dos governos servia como tapa na cara, o discurso oficial de que “nunca antes na história desse país” o povo esteve tão feliz eram solventes para qualquer sinalização de necessidade de mudança, a percepção de que o descontentamento era tópico, restrito a “mídia golpista” ou a “conservadores reacionários”, enquanto casos de corrupção se avolumavam sem grandes consequências e/ou explicações, o endividamento, o enriquecimento dos bancos, a altíssima carga tributária, os juros, os jogos políticos, as associações em torno do poder, tudo, de alguma maneira, inibia um grito de insatisfação generalizada, pelo menos em parte da população, como se não houvesse mais esperança, tudo perdido, como se não adiantasse, como se o povo tivesse sido engolido por uma máquina publicitária e assistencialista, corrupta, demagógica, dogmática, populista, e, sobretudo, moedora de mentes, aspirações e ideais. Nos últimos dez anos o brasileiro teve que conviver com a “metamorfose ambulante”, não só do Lula contradizendo o discurso de uma vida toda em nome de um pragmatismo interesseiro, mas do PT como partido dos “trabalhadores” que deixou de ser, movimentos sociais como a UNE, CUT, sindicatos e tantos outros que simplesmente deixaram de articular com a sociedade, transformando-se em cabides de empregos, orgãos governamentais, fomentando um discurso alinhado ao status quo. Nossa democracia retrocedeu, não havia espaço para críticas, discordâncias, oposição, questionamentos sem que o questionador se transformasse em objeto de ataque, seja ideológico, jurídico, ou fisico em alguns casos. A porta estava fechada, trancada e a chave tinha sido engolida. No primeiro sinal, na primeira fresta, e a passagem de uma tímida luz (o protesto pelo preço das passagens)os que dormiam acordaram e a correria em direção a saída foi generalizada. Por isso, apesar de triste com os exageros, acho que são consequência e proporcionais, não só ao nível de repressão que os governos e a polícia receberam os primeiros movimentos de protestos, como também pela intensidade que a máquina governamental socou para os porões das almas inquietas um grito de insatisfação, de indignação, de perplexidade que parecia, se não morto, adormecido.
É difícil fazer prognósticos, mais difícil ainda imaginar que os excessos cessarão. De qualquer forma não deixa de ser um alento ver o povo acuando os algozes, invadindo o congresso, chamando atenção do mundo que pensava que o Brasil tinha virado um paraíso, indo às ruas e soltando, na verdade, vomitando o que tinha engolido a força, desordenadamente, tudo de uma vez: “aumento das passagens”, “super faturamento dos estádios”, “abaixo a corrupção” e assim por diante. Não é hora de cobrar passeatas organizadas, tampouco um discurso “único” porque os protestos deixaram de ser do movimento passagem livre e passou a ser de um povo, ou pelo menos parte de um povo que não aguentava mais. Por isso a perplexidade das autoridades que argumentam “não há com quem negociar”, “quais as pautas?”. Não é um movimento com um líder, suas bandeiras e pauta reivindicatória. É um povo, são jovens e adultos, é gente acuada que de repente acordou e saiu às ruas para assustar seus meticulosos e acomodados algozes. Não é apenas uma lista a ser atendida, mas um grito a ser ouvido.
Com ou sem exageros, que suas vozes repercutam e os chamados “donos do poder” sintam que são , ou deveriam ser, representantes de um povo que de vez em quando acorda, de vez em quando protesta, de vez em quando mostra a cara e, quando o faz, ninguém sabe o que fazer.

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