E o tal livre arbítrio? – Resposta ao e-mail de um leitor

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Flavio, meu conflito:
Quando eu era criança, o meu DEUS era uma entidade que tinha vontade própria, nos ouvia, julgava e retribuía aquilo que pedíamos dependendo se merecêssemos ou não. Assim acredito que seja a visão da maioria das pessoas. O fato é que aproximadamente no ano de 2007, aos 27 anos comecei a observar o mundo e a interação das pessoas de forma conectada, em que eu dependo da interação de todos a cada milésimo de segundo para que eu esteja exatamente onde estou e o que vai acontecer depende de todas essas ações em conjunto. Percebi também que minhas escolhas conscientes e inconscientes decidirão os caminhos para aonde irei, tudo isso em conjunto com as dos outros também. O simples fato de eu ter parado para digitar este e-mail, já mudou todo o itinerário do meu dia. Eu poderia nesse momento estar trocando o pneu do meu carro, discutindo com alguém, encontrado com uma pessoa que não vejo a anos. Nessa época em que parei pra pensar sobre tudo isso, assisti o filme “efeito borboleta”. Nesse filme, um rapaz tem o poder de voltar no tempo e mudar apenas uma atitude e consequentemente essa única atitude influencia na mudança do destino de várias outras pessoas. Isso só fez reforçar a lógica do meu raciocínio e consequentemente me angustiar quando me vi perguntando: “Se eu tenho meu livre arbítrio pra fazer o que quero, e se tudo o que quero depende de minha história de vida, dos meus discernimentos, minha maturidade, meu raciocínio em conjunto com tantas outras pessoas ao mesmo tempo, cadê o meu Deus que decidia o destino de cada um?” Depois desse dia, me senti um pouco fraco e revoltado quando ouvia as pessoas comentarem: “Chegou o dia certo! Foi porque Deus quis!” Minha cabeça não conseguia entender uma ENTIDADE superior interferindo na vida das pessoas e me questionava mais: “Se Deus interfere, afeta o resto das outras pessoas e tudo muda por consequência dessa interferência. Se ele está fazendo isso com várias pessoas ao mesmo tempo, então somos comandados, programados, cadê o livre arbítrio?”. Não sei se você está me entendendo, mas eu adoraria pensar de uma maneira mais cômoda quando eu era criança em que tudo era mais simples, pois imaginava que tinha Alguém me controlando,  ajudando e me protegendo. Depois disso, passei a ter mais medo da vida, ou melhor, da morte pois perdi a “segurança” que eu tinha do Superior.
Pensei que eu tinha me tornado um ateu. Hoje prefiro me preencher com o seguinte pensamento: “O universo é muito além do que posso ver, existem mais mistérios entre o céu e a terra que ninguém sabe”. Hoje o meu DEUS é uma energia dentro de cada um de nós, a energia que responde à medida que interagimos com ela, nós a detemos para atrair aquilo que desejamos e sentimos. Sinto que isso não é suficiente para me acalmar, pois como ser humano, procuro explicações lógicas. Isso me traz muito desconforto, pois vendo o meu Deus de hoje em dia, não me satisfaz plenamente.
Gostaria de saber o que você pensa sobre tudo isso e se tem algum vídeo postado anteriormente que me traga algumas respostas interessantes.
———————————————————————–Minha resposta:————————————————————————
Meu amigo, gosto da sua inquietude ! São inquietudes assim que geram desconstruções necessárias, que nos tira do jardim de infância onde todos dizem ” olha, foi a vontade de Deus e pronto” e nos remete a outra dimensão, onde é possível questionar, duvidar, refletir, buscar respostas. Isso nos dá tranquilidade para encararmos o fato de que, mesmo eu não tendo respostas para determinada questão, sempre haverá explicações, ainda que fora de minha momentânea esfera de compreensão. Um desses temas, sempre polêmico, é o tal do livre arbítrio. Se Deus existe e é todo poderoso somos joguete em suas mãos, pensam uns, Deus não existe, somos nós que determinamos absolutamente tudo e o imprevisto é apenas um evento mal calculado, pensam outros, há os que, como você, não podem negar o dado de que somos realmente conectados, de que um evento aqui interfere no acolá, um pensamento, um movimento, uma escolha de um desconhecido que seja, pode desencadear uma sucessão de outros acontecimentos aparentemente aleatórios que desembocarão em um evento maior, distante, relevante e estranhamente ligado a algo lá longe, seja no tempo, seja no espaço.
Na minha opinião uma coisa está ligada a outra. Vou explicar melhor: Geralmente quando falamos a palavra “Deus” surge em nossa mente um arcabouço cultural nascido em tradições religiosas, familiares, ancestrais, teológicas, sistemáticas, dogmáticas, institucionais que variam em grau e densidade dependendo de seu histórico, mas, sendo um cara religioso ou ateu, crescendo em ambientes “sacros” ou não, carrega em sua mente doses de uma carga cultural pré concebida daquilo que, simplificadamente, chamamos de Deus. O que estou dizendo é que a palavra “Deus” virou um símbolo que tende despertar na gente percepções, sentimentos, emoções e naturalmente pacotes de compreensão diretamente vinculados ao tal arcabouço cultural que me referi agora a pouco.
Quando um dado novo aparece, seja uma descoberta científica, uma inquietude pessoal, uma aparente contradição diante de um novo olhar, uma outra perspectiva, nossa primeira reação é o medo. “Você está questionando a soberania de Deus”, dizem os religiosos mais light enquanto os mais “hard” vociferam “Herege, herege!”, sem saber que tudo o que tentam fazer é defender-se, é rotular um “herege” para sentirem-se melhor, superiores, negando as angústias e dúvidas, talvez bem mais inquietantes do que a sua. Essa é uma das razões pela qual escrevi recentemente que, diante do atual estágio do que chamamos de cristianismo, ser chamado de herege me soa elogio.
Mas, afinal, somos nós que construímos nossos caminhos, dependemos de fato uns dos outros ou estamos expostos aos movimentos de (mau) humor divino? Lá atrás eu disse que uma coisa está ligada a outra. Na verdade acredito que estamos todos conectados e, sendo assim, não há possibilidades de que o fato de eu estar sentado aqui diante do computador escrevendo a resposta para sua dúvida, deixe de interferir no seu dia, já que está lendo. A maneira como a resposta lhe afetará desencadeará novas percepções e, consequentemente, comportamentos que certamente afetarão terceiros, em gente que se relaciona com você, em quartos que se relacionam com os terceiros e assim sucessivamente.
Tudo o que fazemos gera consequências, tudo o que pensamos interfere de um jeito ou outro e cada escolha reflete adiante, ainda que eu não tenha como mensurar a dimensão desses reflexos, mesmo que eu nunca possa imaginar até onde uma simples escolha refletirá (como bem descrito no filme “efeito borboleta” citado em seu e-mail). Sabemos que somos conectados, temos consciência de que o olhar tem capacidade de modificar a matéria, de que nossas impressões e movimentos não se limitam a nossos passos e que uma coisa leva a outra que constrói uma outra que se transforma em algo que muito provavelmente nenhum dos envolvidos imaginou.
E o livre arbítrio? Você pergunta. Ainda que nossos condicionamentos e limites muitas vezes nos impeça de enxergar nossas escolhas com clareza, cada um de nós pode escolher o que vai fazer com o que lhe acontece, onde vai mexer, o que vai aceitar, recusar ou recuar e, sobretudo, que tipo de significado emprestará a cada situação. Ai é que está.
Acontecimentos se repetem, se desdobram, atingem a coletividade muitas vezes mas nunca afetará duas pessoas da mesma maneira. Pode ser um Tsunami, uma grave crise financeira em um continente inteiro, uma epidemia, não importa, o fato é que eu e você, afetados pelas mesmas consequências podemos escolher o que faremos com elas, que significado daremos e, a partir de então, como refletiremos daqui para frente, nos terceiros, quartos e quintos de nossa relação, aquilo que me atingiu. Ainda não teremos controle sobre os desdobramentos futuros e a produção de nossas escolhas pode gerar acontecimentos inimagináveis, mas, ainda assim, o que vier estará exposto sob a luz da minha consciência, como quem aprende a enxergar em tudo uma grande oportunidade, ainda quem muitas vezes não consiga projetar significado imediatamente, mas apenas quando puder encaixar aquela experiências com outras que ainda estão a caminho (tudo – inclusive as experiências – está conectado). Quando chego nesse ponto de percepção, o livre arbítrio imediatamente deixa de ser uma angústia. Não tenho controle sobre as coisas, mas sei que sou livre para significá-las e é isso que importa.
Dependendo de como eu chamar um acontecimento, de tragédia ou benção, lição ou castigo, acaso ou consequências, dependendo do que eu escolher fazer com aquilo, projetarei adiante, como uma nova referência, um outro ponto de partida, um re-gênesis de um fato, para uns ruins, para mim, quem sabe, uma grande oportunidade. Os acontecimentos tem bem menos importância do que o significado que damos a eles. E isso não é divino?

Sobre as inquietudes e desconfortos de existir

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Se olharmos com honestidade, nossas metas, relacionamentos e prioridades são tentativas de nos sentirmos seguros, afinal, em um mundo que se movimenta, onde nada é estático, onde tudo se transforma, soa desconfortável a ideia de que não temos o controle. Estudamos, nos preparamos, nos informamos, trabalhamos, enriquecemos, nos relacionamos, mas estranhamente a sensação de desconforto não some. Então nos distraímos, brincamos de não ver, nos engamos até que os afunilamentos do tempo, do corpo, da saúde, ou então as contingencias da vida nos encaminharão até a instância onde teremos de enxergar e finalmente nos questionarmos com total sinceridade: afinal, o que eu fiz com minha vida?